O LEBLON DÁ AS CARTAS NAS OFERTAS DE AÇÕES

A recente safra de ofertas de ações no país mostrou a força das gestoras de recursos instaladas no Rio de Janeiro, as chamadas "assets do Leblon", em referência ao bairro de classe alta carioca eleito pela maior parte delas para fixar seus escritórios.

Num mercado acionário pequeno como o brasileiro, essas casas adquiriram grande poder de barganha e tornaram-se um dos principais atores para se definir a que preço os papéis das empresas chegam à bolsa.

Dez anos atrás, quando os IPOs (ofertas iniciais de ações, na sigla em inglês) tiveram seu período áureo, as assets locais não eram tantas e nem tinham o volume de recursos sob gestão que têm hoje. De lá para cá, casas como JGP, ARX, SPX, Truxt, Dynamo e Squadra mudaram de liga e hoje gerenciam portfólios bilionários.

Na última semana, o Valor conversou com acionistas de empresas, executivos de bancos de investimentos e sócios de algumas das maiores gestoras do Leblon a respeito do tema, que desperta paixões.

O assunto esquentava com o passar dos dias, conforme ficava mais claro que duas ofertas que estavam na rua, da Camil Alimentos e da Tivit, de tecnologia, encontravam problemas para colocar seus papéis ao preço pretendido inicialmente. A primeira aceitou rever para baixo a faixa indicativa de preços e desembarcou na bolsa na quinta-feira, e a segunda decidiu cancelar a operação no mesmo dia.

Nos dois casos, as ofertas despertaram pouco interesse de investidores estrangeiros e, diante desse quadro, as assets do Rio aproveitaram para puxar para baixo o valor dos papéis, reclamaram banqueiros. O mesmo teria acontecido em operações anteriores, como Movida, Unidas, que terminou cancelada, e Omega.

"Essas assets são grandes e relevantes, importantes para ancorar muitas ofertas, mas, quando não tem o estrangeiro para contrabalancear, muitas jogam pesado para derrubar preço", diz um executivo de banco bastante ativo em ofertas de ações.

"Os bancos têm errado na mão na avaliação das empresas, por causa do apetite muito grande para ganhar os mandatos. Daí a necessidade de ajustar os preços para baixo", devolve o sócio de uma gestora carioca. "É só colocar no preço correto que não haverá problema", arremata.

Um experiente banqueiro de investimentos que deve trazer um IPO a mercado nesta semana, concorda. "Com um preço bem calibrado e uma boa empresa, não tem erro. Não adianta ter expectativas irrealistas."
Um outro gestor diz, por exemplo, que decidiu nem gastar tempo com a análise de Tivit depois de avaliar que o preço estava "fora da realidade".

Na semana passada, o mercado também desandou, interrompendo uma onda de otimismo, ao mesmo tempo em que houve uma grande concentração de ofertas de ações na América Latina a disputar a atenção dos estrangeiros, fatores que colaboraram para a demanda internacional desaparecer e reduzir preços. Além disso, diz um banqueiro, o mercado atual, embora em alta, ainda é um "buyers market", em que a força está com os investidores e não com as companhias ofertantes. Cientes disso, os compradores usam a força que têm.

Dentro dos bancos, as assets chegam a ser chamadas de "grupo de Whatsapp do Leblon", numa insinuação de que as casas usariam o aplicativo de mensagens instantâneas para combinar suas ordens de compra, prática efetivamente proibida pela regulamentação do mercado de capitais. "Ninguém se fala, não que eu saiba. Até porque isso é crime", diz o sócio de uma das maiores casas do Rio.

"O que os bancos nos dizem é que não podemos depender das gestoras do Rio para preencher o livro da oferta. Elas se alinham e jogam o preço para baixo", relata o acionista de uma empresa que está com um IPO em estruturação. "A recomendação é começar a oferta com os investidores estrangeiros e já ter o negócio garantido quando chega aos locais. Ao mesmo tempo, é muito importante tê-los nas ofertas", completa.

A queixa de bancos e empresas ofertantes muitas vezes parece desafiar a lógica da lei da oferta e procura. Afinal, sem a demanda do estrangeiro, parece natural que o investidor local fique com a faca e o queijo na mão e queira um desconto maior nos papéis.

"O problema é a forma de fazer isso. Tem até chute na canela", diz um banqueiro. Ele cita o caso de uma oferta subsequente, de empresa já listada em bolsa, no início do ano, em que alguns fundos teriam vendido os papéis a descoberto na bolsa, com a intenção de derrubar o preço e comprar mais barato na emissão. No referido caso, a demanda estrangeira teria sido surpreendentemente alta, levando os locais a perder dinheiro.

O pêndulo entre locais e estrangeiros oscilou ao longo do tempo. Dez anos atrás, a dominância era dos gringos, que ficavam com aproximadamente 70% das ofertas. O investidor brasileiro costumava ficar com uma fatia minoritária das operações. Mas o mercado brasileiro passou os últimos anos praticamente sem estrangeiros.

Na reabertura recente das ofertas, os locais chegaram a ter 80% das alocações dos papéis, numa completa inversão de forças. Aos poucos, os fundos internacionais têm vindo, mas em geral com ordens de compra ainda pequenas. As exceções neste ano ficaram por conta da companhia aérea Azul, da resseguradora IRB e da varejista Carrefour.

Pelas estimativas de um gestor tido pelos bancos como um dos mais agressivos, hoje existem dez casas que têm poder de influência nas ofertas de ações. Esse poder, segundo ele, se dá de duas formas: no preço das transações e também na qualidade delas. "As empresas trazem suas ofertas para a chancela dessas gestoras porque sabem que essas assets acompanham bem as companhias e trazem contribuições", afirma o gestor.

Esse gestor cita a Omega, que estreou na bolsa em julho. A listagem no Novo Mercado, por exemplo, foi uma exigência desses investidores para se tornar acionista. Além disso, recomendaram a criação de um comitê independente de partes relacionadas para arbitrar sobre a aquisição de ativos detidos pela gestora Tarpon, que também é a maior acionista individual da empresa.

Fonte: Valor Econômico

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