EMPRESAS EM DIFICULDADE FINANCEIRA ATRAEM GESTORES

O aumento de empresas em dificuldade financeira tem atraído o interesse de fundos especializados em ativos problemáticos ("distressed assets"). Gigantes do mercado internacional, como os fundos Apollo, Cerberus, Aurelius, Blackstone, Lone Star e Oaktree, têm olhado esse mercado e participado de alguns negócios no Brasil. Brasileiras como a Starboard Restructuring Partners e a IG4 Capital também têm buscado oportunidades de investimento em ativos em situações especiais, de empresas em dificuldade financeira ou que precisem de reestruturação.

A gestora IG4 Capital, que tem uma parceria com a Cerberus na busca por investimentos no Brasil, está em fase de captação de um segundo fundo de US$ 400 milhões, dos quais parte dos recursos será destinada para o setor de saúde em ativos de empresas com necessidade de capital. A gestora criou uma holding para fazer aquisições nesse setor.

A IG4 Capital já tem um fundo, o FIP Iguá, de R$ 410 milhões, que investiu na CAB Ambiental, hoje Iguá Saneamento. "Nosso foco é buscar 'especial opportunities' e investir em bons ativos que estejam precisando de reestruturação financeira ou operacional", diz Paulo Mattos, sócio e fundador da IG4 Capital.

Segundo o executivo, a gestora tem buscado oportunidades nos setores de infraestrutura, hospitalar, imobiliário e industrial. "Faz sentido ter uma estratégia de investimento anticíclica", afirma Mattos.

De acordo com o Indicador Serasa Experian de Falências e Recuperações, de janeiro a maio de 2018 foram registrados 654 pedidos de recuperações judiciais, aumento de 13,9% em relação ao mesmo período de 2017. As micro e pequenas empresas representaram 65% dessa amostra. "Parte dessas empresas poderia não ter ido para recuperação judicial se tivesse conseguido um acordo para receber capital novo", diz Mattos.

Já a Starboard Restructuring Partners fechou, no fim do ano passado, uma parceria com o fundo americano Apollo, que comprou 20% da gestora e vai destinar recursos para investimentos conjuntos. A gestora captou um segundo fundo para comprar ativos em situação especial, de US$ 375 milhões, sendo US$ 250 milhões da Apollo, e já tem uma carteira com dez operações em análise. "Temos cerca de R$ 1,3 bilhão para investir e imaginamos fazer de cinco a sete investimentos", afirma Meton Morais, sócio da Starboard.

O primeiro fundo, de R$ 120 milhões, investiu em quatro empresas com retorno de 75% ao ano em pouco mais de dois anos, já tendo saído de duas delas.

Nesses investimentos, a gestora pode entrar tanto no capital quanto adquirindo dívida dessas empresas. "A Mineração Caraíba, por exemplo, estava em recuperação judicial. Reestruturamos a dívida e trouxemos a empresa de volta à operação", afirma Morais. A saída do investimento se deu através de uma oferta pública de ações (IPO) da empresa na bolsa de valores do Canadá. "Procuramos empresas em dificuldade financeira e não temos foco em um setor específico", afirma Morais.

O envolvimento de diferentes companhias, principalmente do setor de construção, na Operação Lava-Jato fez com que muitas delas entrassem em dificuldade financeira, tendo que vender ativos para manter a operação. Isso trouxe oportunidades para esses fundos.

 "É óbvio que tem que tomar um cuidado adicional nesses casos, mas o ativo não precisa morrer porque o controlador teve um problema de compliance", afirma Mattos, da IG4 Capital.

Ele lembra que no exterior os fundos já investiram em ativos de empresas envolvidas em escândalos de corrupção como a Siemens, Alstom e Enron. "Nos Estados Unidos se troca logo o controlador e empresa volta a rodar. No Brasil, demora-se demais para trocar o controlador, que não quer abrir mão da empresa", diz Mattos.

Morais, da Starboard, também acha que existe oportunidade para compra de ativos. "Parte dessas empresas têm grandes estruturas e consegue fazer a venda de ativos."

A IG4 Capital, por exemplo, avalia, segundo fontes, a compra, em parceria com a suíça Zurich Airport, do aeroporto de Viracopos, que entrou em recuperação judicial neste ano e cuja concessão pertence às empresas Triunfo Participações e Investimentos (TPI) e UTC, ambas empresas investigadas na Lava-Jato.

A Starboard, junto com outros de investidores, chegou a avaliar a compra da participação da Odebrecht Transport na concessionária de transporte ferroviário SuperVia. Já o fundo Apollo chegou a estudar uma oferta pelo Estaleiro Atlântico Sul (EAS), controlado por Camargo Corrêa e Queiroz Galvão. A gestora não se pronunciou sobre os casos específicos.

Fonte:Valor Econômico

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