FATIA DO MERCADO EM PROJETOS DEVE CRESCER COM NOVO BNDES

A mudança de comando do BNDES, com a nomeação deJoaquim Levy, executivo conhecido por ter um perfil defensor da austeridade fiscal, deve abrir espaço para o aumento da participação do mercado de capitais no financiamento de projetos. Neste ano, as emissões de títulos de dívida responderam por cerca de 27% do financiamento de empreendimentos de infraestrutura, de acordo com levantamento da Dealogic.

Esse percentual, segundo especialistas ouvidos pelo Valor, tende a crescer, especialmente em segmentos em que os investidores já mostraram ter apetite, como os de rodovias e linhas de transmissão. Para esses interlocutores, o BNDES de Levy deve concentrar sua atuação em setores estratégicos, que teriam maior dificuldade de ser financiados pelo mercado.

Neste ano, até setembro, as emissões de debêntures destinadas para projetos de infraestrutura somaram R$ 14,394 bilhões, segundo dados do Ministério da Fazenda. O volume recorde ficou bem próximo do total desembolsado pelo BNDES para o setor no período, que chegou a R$ 17,549 bilhões. E só não foi maior por conta da mudança nas condições de financiamento adotada pelo BNDES em março, que fez com que o banco voltasse a ficar mais competitivo e levasse uma fatia maior das operações de mercado.

Na semana passada, por exemplo, o banco anunciou a aprovação do financiamento de R$ 3,64 bilhões à Via Paulista, controlada pela Arteris, para custear as obras da rodovia Itaporanga-Franca, conhecida como Rodovia dos Calçados. Os recursos representam mais da metade do investimento total do projeto, orçado em R$ 6,39 bilhões. O mercado de capitais responderá por cerca de R$ 400 milhões, com uma emissão de oito anos. Para executivos do mercado, havia espaço para uma participação maior do financiamento via emissão de debêntures, podendo chegar ao dobro do volume previsto.

Segundo a superintendente da área de saneamento e transporte do BNDES, Luciene Ferreira Monteiro Machado, foi estratégia do grupo responsável pelo projeto optar por uma parcela maior do banco no financiamento, uma vez que a instituição que concedeu o empréstimo-ponte não demonstrou interesse em oferecer linha de crédito para o longo prazo. “Essa rodovia é muito extensa, com compromisso importante de investimentos, o que demanda uma solução de longo prazo.”

Outro exemplo do maior poder de fogo do BNDES foi a aprovação do financiamento de R$ 5,2 bilhões para a linha de transmissão Xingu Rio Transmissora de Energia. Com um total de investimento previsto de R$ 8,5 bilhões, a State Grid, controladora do projeto, considerava inicialmente captar R$ 3 bilhões com a emissão de debêntures e outros R$ 3 bilhões com o BNDES. Mas por conta da melhora das condições de financiamento adotada pelo banco, a parcela a ser financiada via emissão de debêntures será menor, entre R$ 800 milhões e R$ 1,1 bilhão.

Apesar de a adoção da TLP (Taxa de Longo Prazo), que em junho estava em 7,28%, ter alinhado o custo dos empréstimos do BNDES ao praticado no mercado, a redução do spread cobrado nas operações e o alongamento dos prazos, que pode chegar a 34 anos em alguns setores, aumentaram a atratividade das linhas do banco. O maior prazo alcançado em uma emissão de debêntures de infraestrutura foi de 18 anos.

Recentemente, o BNDES alterou as condições de financiamento para os projetos de transmissão. O banco passou a cobrir até 100% dos itens financiáveis pelo prazo de até 24 anos, limitado a 80% do valor total do projeto. Antes, o limite era de até 80% para os itens financiáveis e o prazo de amortização, de 20 anos.

Um exemplo de setor que pode ganhar espaço no mercado de capitais devido ao perfil da nova gestão do BNDES, mas que vem sendo financiado totalmente por banco de desenvolvimento, é o de concessões de aeroportos. O financiamento dos quatro aeroportos leiloados em 2017 será feito pelo Banco do Nordeste, no caso de Fortaleza e Salvador, e pelo BNDES, no caso de Florianópolis e Porto Alegre. “Na época do leilão, o mercado esperava que parte do financiamento dessas concessões fosse realizado por meio de debêntures”, diz um executivo que acompanhou as operações.

O mercado de capitais já mostrou que tem capacidade de financiar inteiramente alguns empreendimentos. A EDP Aliança, parceria entre a EDP Energias do Brasil e a Celesc, captou neste ano R$ 1,2 bilhão em debêntures para 2025 que vão financiar praticamente a totalidade dos investimentos previstos na linha de transmissão em Santa Catarina. “O projeto contava com menos itens exigíveis de financiamento na lista do BNDES e tinha grande necessidade de recursos na primeira metade do prazo de investimento, então fazia mais sentido financiar via debêntures”, diz Eduardo Masson, diretor financeiro da EDP.

Masson afirma que a empresa procura diversificar as fontes de financiamento entre bancos de fomento e mercado. Dos cinco projetos da EDP em carteira, dois deles, no Espírito Santo e em Santa Catarina, foram financiados com debêntures no mercado.

A vantagem desse tipo de estrutura de financiamento mais alavancada, que conta com um aporte pequeno dos acionistas, é que permite aumentar o retorno do projeto, afirma Marcelo Girão, chefe de project finance do Itaú BBA, coordenador líder da emissão das debêntures da EDP.

Outro exemplo de projeto inteiramente financiado via mercado de capitais foi o da Entrevias. Em março, a concessionária do Pátria Investimentos emitiu R$ 1 bilhão em debêntures incentivadas pelo prazo de 13 anos. “Tivemos uma demanda de 1,7 vez a oferta nessa operação, que contou com a participação de investidores estrangeiros”, diz Girão, do Itaú BBA, que coordenou a operação.

Mas não é todo projeto que o mercado de capitais é capaz de financiar, independentemente das mudanças que possam acontecer na forma de o BNDES atuar. Segundo o chefe de project finance do BTG no Brasil, Gustavo Fava, há um interesse maior dos investidores por emissões de empresas que acessam frequentemente o mercado e de setores cujo risco já é mais conhecido, como o de transmissão e geração de energia elétrica, além de rodovias.

A vantagem do financiamento via debêntures é que ele traz mais flexibilidade na estrutura em relação ao empréstimo do BNDES e, em alguns casos, acaba sendo mais interessante para as empresas, afirma Mauro Tukiyama, diretor de renda fixa do Bradesco BBI. “A tendência é ter uma combinação entre financiamento do BNDES, mercado de capitais e bancos”, diz.

Para o responsável pela área de project finance do Santander, Edson Ogawa, o BNDES deveria se concentrar em setores que o mercado de capitais tem mais dificuldade de financiar, como o de saneamento, e em projetos que envolvam parcerias público-privadas, com risco regulatório maior. Da mesma forma, Ogawa destaca a importância de organismos multilaterais na estruturação de um pacote de projetos a ser oferecido ao mercado. “O maior desafio é a capacidade do governo estruturar e colocar bons projetos na rua.”

Luciene, do BNDES, lembra que já está havendo maior participação do mercado de capitais. “Os projetos com bons acionistas e bem estruturados têm ido a mercado e conseguido condições interessantes.”

Fonte: Valor Econômico

Últimas Notícias

CM

FT

PE

WA

Curitiba - PR

Rua General Mario Tourinho, 1733 - Sala 405
Barigui – 80.740-000
F. +55 41 3339 3195
Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

São Paulo - SP

Rua do Rócio 423 - Sala 705
Vila Olímpia – 04.552-000
F. +55 11 3582 55 31
Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

 Compliance

CECMCPNVMFR

Give your website a premium touchup with these free WordPress themes using responsive design, seo friendly designs www.bigtheme.net/wordpress