GESTORA MINT BUSCA INVESTIR COM VISÃO DE DONO

É o olho do dono que engorda o gado. E as vendas do online. E o desempenho dos alunos. Ou qualquer outra área na qual quem coloca o dinheiro acompanha de perto o dia a dia do negócio. É com essa premissa que a gestora de recursos Mint Capital, criada há nove anos, está buscando se posicionar agora no mercado, num modelo de investimentos pouco comum no país, mas com presença crescente nos Estados Unidos.
Espécie de holding de investimentos, a Mint compra participações relevantes em pequenas e médias empresas, com boa gestão, histórico e fundamentos.
Detalhe: os recursos são aplicados de maneira permanente, sem prazo determinado para resgate e com participação ativa junto ao conselho por parte dos investidores — jovens com patrimônio e viés empreendedor.

Membros das terceiras e quartas gerações de famílias que tiveram sucesso nos negócios, eles se juntaram para oferecer sua experiência financeira e nas áreas nas quais as empresas investidas atuam, geralmente ligadas a seus negócios originais. “As famílias querem continuar investindo em empresas porque foi assim
que se deu a origem dos patrimônios: empreendendo, empregando pessoas e movimentando a economia”, diz Cássio Beldi, sócio da Mint Capital. “Não queremos entrar numa fábrica de CDIs porque está no nosso DNA fazer coisas e é dessa maneira que entendemos que se gera riqueza.”

Para explicar o conceito da holding de investimentos, inspirada em gestoras americanas como Adventur.es, Baupost Group e, é claro, Berkshire Hathaway, Beldi fala mais sobre o que a Mint não é, do que efetivamente ela é. Seu modelo de investimento não é o de um fundo de “private equity” (de compra de participação em empresas fechadas), uma vez que não há captação de recursos, obrigação de investir, nem prazo para realizar resultados e sair do negócio.

Eles também não são um “family office”, por não cuidarem de todo o patrimônio das famílias. Muito menos uma divisão de “wealth management” de um banco. Além de não terem estrutura para isso, não cobram um percentual sobre o patrimônio, não recebem rebate ou taxa de corretagem e nem empregam executivos de mercado que não tenham esses investimentos como projeto de vida.

“Os investidores se tornam sócios e, como investimos juntos, vestimos a camisa juntos”, afirma Beldi, que tem 32 anos. “É um modelo que elimina possíveis conflitos de interesse e alinha horizontes de investimentos que os negócios precisam.” A Mint, conta, não capta recursos ativamente. Assim que a casa encontra uma boa oportunidade de negócio, estrutura o melhor veículo para fazer o aporte. Os investidores interessados em participar comprometem o capital, tornando-se sócios diretamente das empresas investidas e não simplesmente cotistas de um fundo.

Sob o novo modelo, o primeiro investimento da Mint, que está analisando outros negócios, foi na Bahema. Beldi e seus sócios conheciam Guilherme Affonso Ferreira Filho, 31 anos, também da terceira geração de uma família de investidores e empreendedores. Depois de trocarem informações tanto sobre a proposta da Mint quanto do ambicioso projeto de educação básica da Bahema, partiram para a ação. No segundo semestre do ano passado, a Mint criou um fundo específico para o investimento e comprou 37% das ações.

Este ano, a casa aumentou a fatia para cerca de 44% do capital, tornando-se o maior acionista da empresa — pela cotação de sexta-feira, sua participação é avaliada em R$ 34,5 milhões. “A Bahema tem a ambição de ser um dos maiores grupos de educação privada do país, precisava de capital, mas eu diria que não de qualquer capital”, diz Beldi.

Isso porque o modelo de negócio da Bahema não se restringe a comprar escolas pela carteira de alunos e colocá-los sob uma mesma metodologia de ensino. A direção das instituições é mantida, bem como o modelo pedagógico e a proposta educacional. Os ganhos de sinergia vêm da gestão financeira e do compartilhamento de informações entre escolas. Quando a Balão Vermelho, de Belo Horizonte, resolveu abrir seu ensino médio, teve ajuda da Escola Parque, do Rio (dona de bons resultados no Enem), e do centro de formação de professores da Escola da Vila, de São Paulo. “A forma mais óbvia de crescimento nesse caso era oferecer o ensino médio porque os pais já conhecem e gostam da metodologia de ensino”, diz Affonso Ferreira. “Os ganhos foram importantes para todos os envolvidos, sobretudo os alunos.

”Há mais de 60 anos no mercado, a Bahema estava para encerrar as atividades quando Guilherme e dois primos, depois de estudarem profundamente o setor, resolveram investir em educação. Com R$ 30 milhões em caixa, fizeram as primeiras aquisições, mas precisavam de mais recursos. “No início de 2017, começamos a buscar os primeiros investidores, para uma captação pequena de, no máximo, R$ 30 milhões”, diz ele. “Nosso projeto ainda era um business plan que tinha muito para se provar.”

Houve interesse dos investidores, com pelo menos seis ofertas, mas a Bahema não quis fazer leilão: precisava de recursos de longo prazo, que não exigissem grandes choques nas escolas adquiridas em troca de resultados imediatos — proposta que casava com a abordagem de investimento da Mint. “Educação é um negócio de décadas”, diz Beldi.

Pouco comum no Brasil, a estrutura de investimento na qual donos de fortunas — e investidores menores — se unem para adquirir participações relevantes em boas empresas tende a crescer. “Esse movimento pode vir a ser uma consolidação da indústria de fundos, já que o volume de recursos em private banking é muito grande no Brasil”, afirma Ricardo Rocha, professor de finanças do Insper. “Um negócio consolidado, com bons resultados, produtos, clientes e marca, tem riscos, mas eles são menores do que começar um empreendimento do zero.”

Segundo Rocha, a estrutura montada para a Mint lembra iniciativas como a que o empresário Abilio Diniz criou para investir, por exemplo, na BRF, em 2013: colocar capital proprietário de longo prazo numa empresa consolidada e estar perto do conselho. Apesar de ter sido bem-sucedido em outros negócios com sua gestora Península, as perdas da BRF lembram que o modelo não é infalível. Ele não foi o único, é claro. O próprio Guilherme Affonso Ferreira, o criador da Bahema, ou Lírio Parisotto são conhecidos por terem sido grandes investidores em empresas de capital aberto e conselheiros ativos, de maneira individual. “É difícil juntar pessoas para serem sócias e investirem seu próprio capital quando se envolve a gestão e decisões sobre um negócio”, diz.

Beldi conheceu seus sócios Franco Rossato Dal Pont e Ricardo Dittmer na Universidade de Columbia, nos EUA. Herdeiro da agropecuária Rossato, de Uberlândia, Dal Pont, 40 anos, era sócio do fundo de investimentos Batalha. Estruturado no modelo de “value investing”, a teoria financeira na qual Warren Buffett se baseou para criar a Berkshire, o Batalha tinha uma proposta parecida à da Mint, de Beldi, cujo avô foi fundador do grupo Splice. Juntaram as operações e o Batalha tornou-se a área de inovação da Mint. Três anos atrás, Dittmer, com 28 anos e cuja família é dona da fabricante de ceras Megh, de São Paulo, entrou para o time.

“Há um grande número de famílias que profissionalizaram os negócios e treinaram os sucessores a gerir patrimônios”, diz Rocha. “Faz sentido, sobretudo quando o herdeiro tem vocação.” É fato. Beldi e Dal Pont, por exemplo, se conheceram durante um curso de Bruce Greenwald, um dos gurus do value investing, sobre alocação de ativos da família, em Columbia.

Além dos recursos de parte das três famílias, a Mint conta hoje com aportes de um quarto investidor e um fundo internacional, cujos nomes são mantidos em sigilo. Segundo Beldi, a meta é chegar a oito famílias como sócias na holding, com expertise em outros tipos de negócios e áreas geográficas. “A ideia é ter uma troca rica de experiências de quem entende do negócio, seja o dono ou o investidor que já atuou na área, com quem conhece de gestão financeira”, diz ele. “É investir com cabeça de dono, mas, evidentemente, sem entrar na gestão: apenas compartilhando o conhecimento e a vontade para ajudar a construir.” Affonso Ferreira define o modelo como de navegador. “Não somos nem o motorista, nem o passageiro, mas ajudamos a indicar o caminho”, afirma o sócio da Bahema.

A remuneração da Mint se dá pela cobrança de um percentual sobre os recursos comprometidos pelos investidores, que só entram no negócio caso se interessem por ele. O pagamento, em geral, é feito anualmente, mas ele é negociado caso a caso. Já os investidores são remunerados por meio da distribuição de dividendos ou no longo prazo, caso o negócio seja bem sucedido. Na carta semestral da gestora, é explicitado que não há promessas e nem deve haver expectativas de que todos os retornos semestrais e anuais sejam positivos. “Sabemos que é da natureza das empresas”, afirma Beldi.

Ao mesmo tempo em que tem a holding, a Mint oferece para investidores não qualificados um fundo tradicional, também baseado em value investing e finanças comportamentais, cujo mais recente investimento foi em Marisa — no total, contando Bahema, a Mint tem R$ 80 milhões aplicados, além de um volume maior, que a gestora não abre, de capital comprometido.

Os sócios pretendem ainda fazer da área de inovação uma empresa independente para oferecer produtos sistemáticos, escaláveis e baratos, a partir de investimentos grandes em tecnologia. Entre as alternativas no radar, estão estratégias baseadas sobretudo em “fatores”, atributos comuns a uma carteira que condicionam seus resultados, tais como: forte geração de caixa, boa pagadora de dividendos, valor de mercado abaixo do patrimonial, entre outros.

“A indústria de fundos brasileira é muito concentrada e pasteurizada”, diz Dal Pont. “Apesar de ela ter crescido muito nas últimas décadas, os ganhos de escala não foram repassados aos cotistas porque a situação é tão confortável que não há necessidade de inovar.” Segundo ele, nos EUA tem havido uma migração forte dos investidores para fundos mais baratos, que adotam o modelo fiduciário, tendência marcada pelo compromisso do gestor de oferecer o melhor serviço e ser remunerado exclusivamente pelo cliente e que começa a chegar ao Brasil.

Fonte: Valor Econômico

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