HERDEIROS LIDERAM INVESTIMENTOS DE IMPACTO

As cifras ainda são modestas - cerca de R$ 200 milhões alocados no Brasil, segundo o Global Steering Group (GSG), ou seja, uma gota de 0,13% dentro de um oceano de R$ 154 bilhões já investidos pelos fundos de participações em empresas no país, conforme dados da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (Abvcap). Mas os sobrenomes ilustres envolvidos nesse novo nicho sugerem existir algo mais no ar. Até mesmo, potencialmente, uma mudança de cultura. São os chamados investimentos de impacto, ou seja, aqueles que buscam desenvolver negócios com dupla vocação: gerar lucro e fazer o bem.

A face mais visível dessa evolução de pensamento do capital exibe sobrenomes famosos, herdados de empreendedores como Sebastião Camargo, Jorge Paulo Lemann, Henrique Wickbold, Julio Simões e Samuel Klein, só para citar alguns. Trata-se de uma nova geração de líderes para quem os negócios têm de ter um objetivo duplo e indissociável.

A Toniic, organização que reúne "family offices", gestoras e empresas alinhadas aos investimentos de impacto em 26 países, realizou um estudo dentro de sua base de participantes, com herdeiros de todo o mundo em idades entre 20 e 40 anos, incluindo o Brasil, que revela como essa mudança de mentalidade tem se disseminado entre os futuros decisores. A pesquisa mostra que 79% dos entrevistados se consideram investidores de impacto e buscam aliar retorno financeiro a algum benefício socioambiental. Dos 21% restantes, metade diz aspirar atuar no segmento.

Ainda segundo o levantamento, 67% declaram ter recursos próprios entre US$ 500 mil e US$ 99 milhões. E o grupo poderá aumentar ainda mais a própria fortuna com a expectativa de acesso futuro a heranças entre US$ 1 milhão e acima de US$ 1 bilhão.

"Ainda existe um certo preconceito com o investimento de impacto, porque muita gente acha que é filantropia, mas não é", diz Marcelo Siniscalchi, diretor da Itaú Asset Management. Segundo o gestor, "filantropia não visa lucro, mas o negócio social gera sim retorno financeiro, e vai além ao resolver ou combater problemas da sociedade".

"Ainda existe um certo preconceito com o investimento de impacto, porque muita gente acha que é filantropia, mas não é", diz Marcelo Siniscalchi, diretor da Itaú Asset Management. Segundo o gestor, "filantropia não visa lucro, mas o negócio social gera sim retorno financeiro, e vai além ao resolver ou combater problemas da sociedade".

O executivo afirma que mais de 90% dos ativos do braço de gestão de recursos do Itaú já passam por seleção sob o filtro do chamado ESG, sigla em inglês para denominar práticas de responsabilidades ambiental, social e de governança. O ESG, no entanto, reconhece Siniscalchi, é como se fosse um passo anterior ao investimento de impacto.

Uma companhia sustentável, em geral, atua para neutralizar seu impacto negativo. Já o negócio social busca, na verdade, avançar nas respostas a um desequilíbrio, como, por exemplo, inclusão financeira, microcrédito e levar água potável a regiões sem infraestrutura. Ou seja, o empreendimento de impacto pode ser, de muitas maneiras, o próximo degrau após a consolidação da sustentabilidade.

Muitas vezes as propostas dos negócios sociais se confundem com a de entidades filantrópicas. Mas, do ponto de vista das empresas, a meta é ir além. Um empreendimento de impacto busca levar as soluções a novos patamares em termos de atuação e alcance. E também persegue retorno financeiro, porque lucro assegura crescimento, evolução e perenidade das iniciativas.

Para Siniscalchi, do Itaú, apesar de ainda tímidos no Brasil, os produtos financeiros desse nicho, que podem variar de participação direta em empresas a papéis de dívida, títulos conversíveis, crédito, operações estruturadas e fundos especializados, começam, aos poucos, a surgir como opções de diversificação de portfólio. "Acho que muitos investimentos do gênero tendem a ter retorno igual ou até superior aos tradicionais, mas, no mínimo, esses filtros vão se revelar um fator de redução de riscos para os empreendimentos", afirma.

Pesquisa feita em 26 países mostra que 79% dos herdeiros entre 20 e 40 anos se consideram investidores de impacto

Já existem casas dentro do mercado de participações em empresas que usam critérios de finanças sociais. "Para mim impacto não é uma subcategoria, é, na verdade, mais uma dimensão de análise, um novo filtro, que quem estiver atuando no mercado de investimentos tem de considerar", afirma Humberto Matsuda, sócio da gestora de venture capital Performa Investimentos. Na visão do gestor, "se temos várias opções com perfis de risco-retorno parecidos, como você escolhe? A que tem maior impacto".

A nova mentalidade também se mostra atraente a outros ramos da indústria de investimentos. O "family office" Wright Capital, por exemplo, só trabalha com famílias que aceitem direcionar ao menos 1% dos recursos administrados no Brasil para ativos com objetivos sociais ou ambientais. "Nós criamos um fundo de fundos para aplicar em carteiras de negócios de impacto", diz a fundadora, Fernanda Camargo.

De acordo com a gestora, o grau de demanda por investimentos socioambientais varia de família para família, mas esse anseio está amplamente presente nos mais jovens. "Já é dessas cabeças querer fazer algo relativo a impacto."

Muitos herdeiros de grandes conglomerados no Brasil já atuam ou pretendem atuar como investidores de impacto. Criada em 2009, a Vox, pioneira entre os fundos de venture capital com esse perfil no país, tem entre seus fundadores Antonio Moraes Neto, 32 anos, herdeiro de terceira geração de Antônio Ermírio de Moraes, do grupo Votorantim.

Neto do fundador das Casas Bahia, Samuel Klein, uma figura mais conhecidas do varejo, Raphael Klein, 39 anos, criou em 2014, junto com outros sócios, a Kviv Ventures, um fundo de venture capital de impacto. "Apostamos em empresas que conseguem devolver coisas positivas para a sociedade de maneira sustentada e estruturada. Essa é nossa tese de investimento."

Para Klein, os filtros de impacto vão se tornar o modelo dominante de investimento em um futuro próximo. "Ainda tem preconceito grande de que negócio de impacto é abrir mão do lucro, mas quem não olhar a sustentabilidade do empreendimento no longo prazo não vai sobreviver. Esse é o novo normal e não tem outra forma de pensar", afirma.

Luiza Camargo Nascimento, 35 anos, neta de outro empreendedor de credenciais superlativas, Sebastião Camargo, fundador da construtora Camargo Correa, considera "inevitável a mudança de cultura" para uma visão de conciliar lucro e benefício à sociedade. "Todas as grandes empresas vão ter de repensar o modelo de negócios", diz.

Investidora de impacto e integrante do conselho deliberativo do Instituto de Inovação em Cidadania Empresarial (ICE), Luiza acredita existir em andamento uma mudança ampla de mentalidade que envolve empreendedores e investidores, mas também consumidores. "Quem quiser se manter no mercado vai ter de incorporar o modelo de impacto nos valores centrais da empresa, no dia a dia e na forma de fazer negócios", afirma.

A lista de sobrenomes influentes com atuação na área inclui muitos outros. Filha de um dos mais bem sucedidos investidores do país, Jorge Paulo Lemann, Lara Lemann, 25 anos, está em processo de montagem de um fundo do gênero. Fernando Simões Filho, 30 anos, neto de Julio Simões, fundador da JSL Logística, segue a mesma trilha. O jovem deixou a companhia da família para criar a BemTeVi, uma gestora voltada a ajudar a desenvolver iniciativas de impacto.

Na outra ponta, há herdeiros que atuam como empreendedores socias. Pedro Wickbold, 31 anos, neto de Henrique Wickbold, fundador da compahia, voltou ao grupo há dois anos, e agora participa ativamente do processo de transformação da indústria familiar em uma empresa de impacto . "A oportunidade de ser gerador de retorno financeiro e, ao mesmo tempo, agente transformador da sociedade é o que mais me motiva", diz.

O tema tem chamado a atenção da comunidade financeira internacional.Tanto que, em janeiro, Larry Fink, presidente da BlackRock, com US$ 6,8 trilhões sob gestão, enviou carta às corporações na qual ressalta que, "para prosperar ao longo do tempo, as empresas não devem só obter bom desempenho financeiro, mas também assegurar que contribuam positivamente para a sociedade, agregando à sua missão metas claras de impacto socioambiental".

O alerta do executivo-chefe da maior gestora do mundo dá uma pista da temperatura que o assunto começa a ganhar globalmente. Mas, nesse caso, ao contrário da ameaça de mudança climática, quanto mais quente melhor.

Fonte: Valor Econômico

 

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