FUNDO QUANTITATIVO VIRA OPÇÃO ANTICRISE NAS CARTEIRAS

SÃO PAULO  -  Com a sangria na bolsa, dólar nas alturas e a volatilidade na ordem do dia, alie-se às máquinas. Essa é a mensagem que alguns gestores de patrimônio têm transmitido aos investidores. Num momento em que parece ser humanamente impossível identificar as variações de tendência dos diversos ativos, são os fundos quantitativos que têm servido como balanceadores de risco para algumas carteiras. São portfólios que, no conjunto dos multimercados, têm se sobressaído nesses tempos de disco enroscado no tema eleições no Brasil ou na guerra comercial e política monetária americana.

O que os quantitativos fazem na prática é usar dados históricos para prever o futuro, valendo-se da inteligência artificial para rastrear o comportamento dos ativos sob um conjunto de variáveis. É quando o método científico é integrado ao processo de investimento, incluindo-se modelos econométricos e “machine learning” para identificar padrões, desenvolver previsões e construir a carteira em diversos mercados. Sai de cena a análise macroeconômica típica e entra a especialização de matemáticos, estatísticos, engenheiros e até cientistas de dados.

No exterior, os fundos quantitativos rondam a marca do US$ 1 trilhão e algumas casas lideram o ranking de “hedge funds” nos Estados Unidos — caso da AQR Capital (US$ 90 bilhões), Reinassance Technologies (US$ 57 bilhões), Two Sigma (US$ 37 bilhões) ou a Bridgewater Associates (US$ 124,7 bilhões), de Ray Dalio, que já se revelou fã do uso de ferramentas quantitativas. A compilação, de maio, é da “Business Insider”.

No Brasil, porém, esses portfólios não são muito numerosos. Há cerca de uma dezena de assets dedicadas a esse tipo de estratégia, mas esse é um grupo que tem se provado a cada novo round de turbulência. Neste ano, os retornos chegam a 35%, enquanto nas diversas categorias de multimercados a rentabilidade média varia de 0,97% a 9,7% (na categoria com investimento no exterior), segundo a Anbima. A alocação de famílias endinheiradas responde por boa parte do patrimônio dos quantitativos, mas há opões disponíveis em plataformas como XP, Guide, Órama, Genial, Mirae, Modalmais e BTG Pactual Digital.

“Na hora que a volatilidade aumenta, quando a maioria dos multimercados apresenta performance negativa, os gestores que se valem de inteligência artificial acabam tendo resultados positivos”, diz Dennis Kac, sócio da butique de investimentos Brainvest, que passou a compor o portfólio dos seus clientes com uma parcela no fundo da Murano. “Quando você coloca isso dentro do risco multimercado, como se fosse um hedge, você diminui a volatilidade e melhora o seu ‘sharpe’ [índice que mede o retorno em relação à volatilidade] como um todo.”

Estratégia semelhante tem sido usada por Fernando Ganme, sócio-fundador da Capital Investimentos, que costuma colocar uma pequena porção do quantitativo da Kadima para investidores de maior volume, numa combinação com outros fundos mistos. “Como os quantitativos rodam com base em modelos matemáticos, não entra o lado psicológico do gestor que pode ter medo de tomar uma decisão num momento como a crise de 2008 [com a quebra do americano Lehman Brothers] ou o impeachment [da presidente Dilma Rousseff] em 2016”, exemplifica.

Como esses fundos em geral são bastante voláteis, ele afirma não recomendar uma alocação pura. “A combinação é útil porque reduz muito o risco da carteira, é um seguro que se faz para grandes tragédias”, diz. Quando o mercado vai bem, Ganme diz ser mais difícil os quantitativos se sobressaírem porque os demais multimercados também apresentam boa performance, mas o valor aparece quando a categoria em geral vai mal. “Eu brinco que quando o Kadima é o grande destaque da carteira do investidor, ele vai estar deprimido [com os outros resultados].”

Em fundos quantitativos, os retornos tornam-se relevantes em dias de alta volatilidade dos mercados. Um levantamento do Murano mostra que, no período que considera os 20% dos pregões mais nervosos do Ibovespa, quando se compara a performance acumulada do fundo com os demais multimercados do IFMM (índice de “hedge fund” do BTG Pactual), a diferença é relevante: o Murano teve um retorno acumulado de 97,4% e o segundo colocado, cerca de 30%.

“O cenário à frente, com eleições, ninguém sabe como vai evoluir, a única certeza é que vai ter volatilidade, para um lado ou outro, e é nesse ambiente que o quantitativo se dá bem”, afirma Moacir Fernandes, sócio-gestor da Murano Investimentos.

“Enquanto o gestor discricionário tem, por exemplo, meia dúzia de ações, faz uma análise profunda, cálculo de preço justo em cima do fluxo de caixa descontado e dos ‘drivers’ da indústria, o quantitativo pode estar em todo o Ibovespa, em ações nos Estados Unidos ou nos mercados futuros”, lista Fernandes. “O gestor macro tem um viés comportamental, de que a gente pode até compartilhar na interpretação de cenários, mas os modelos não.”

Sem a mão humana no processo decisório, o fundo fica descorrelacionado de outros multimercados. Em cinco anos, a estratégia 100% sistemática do Murano apresenta um retorno equivalente a 180% do CDI. Essa conta inclui a fraca performance de 2017, quando a baixa volatilidade resultou num retorno de 50% do referencial. Com um patrimônio que saltou de R$ 80 milhões para a casa dos R$ 150 milhões nos últimos três meses, o portfólio tem neste ano valorização de 18% até 29 de agosto.

Com cerca de R$ 200 milhões reunidos na estratégia quantitativa da Kadima, fundada pelo ex-Brascan Sérgio Blank, neste ano são os modelos que acompanham o fluxo de negociações do dólar que se destacam no bom retorno do fundo principal, com valorização de 7,6%, diz Maranhão. “O que ele busca não é uma tendência de longo prazo, mas de curtíssimo, de um lado ou outro. Posso amanhecer um dia comprado e no outro vendido, e ganhar tanto dinheiro numa ponta quanto na outra.”

Ele cita que, diferentemente de um fundo macro, com posição mais estrutural, o modelo gira a carteira em média a cada três dias. “Apesar do movimento gigantesco de alta da moeda, não foi esse grande que capturamos, mas vários pequenos.” Os modelos da gestão também rastreiam tendências com ativos internacionais, que têm proporcionado bons resultados, principalmente com commodities agrícolas e metálicas.

No conjunto, chegam a ser cerca de mil estratégias desenvolvidas, considerando-se cada uma das fórmulas sob um conjunto de parâmetros, em diferentes camadas. Historicamente, o multimercado da Kadima tem retorno equivalente a 135% do CDI.

No ano, o quantitativo que apresenta melhor desempenho é o multimercado FGS Agressivo, com valorização de quase 37%, da gaúcha Seival Investimentos. A gestora foi criada em 2007, a partir da sociedade de Carlos Groehs Chaves, ex-Microsoft, com Arthur Chagas Gerdau Johannpeter, herdeiro da família Gerdau, que por dez anos atuou na Gerval, divisão financeira do grupo.

Segundo Chaves, o pano de fundo que sustenta a performance em 2018 tem sido a guerra comercial liderada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Com modelos seguidores de tendência de quatro classe de ativos — moedas, commodities, índices de ações e taxas de juros —, a queda da soja americana, a perda de valor de moedas globais em relação ao dólar, bem como de bônus europeus e do Ibovespa estiveram entre as estratégias que contribuíram para a performance do fundo.

Conforme explica, os algoritmos estão modelados para rastrear um comportamento de preços nos mercados de contratos futuros globais que apresente uma divergência persistente da média recente. Com forte exposição global, e também seguindo tendências com real, DI futuro e Ibovespa, nas últimas eleições, em 2014, o fundo obteve retorno de 50%. “Buscamos oportunidades não somente no Brasil, mas em todo o mundo. Isso ajuda para não sermos mais do mesmo na família de multimercados no Brasil.”

No ano passado, porém, o fundo, que tem patrimônio de cerca de R$ 80 milhões, teve desempenho negativo de quase 9%. Em três anos, a volatilidade é uma das mais altas entre o grupo de quantitativos avaliado, de 18,74%, segundo a Morningstar.

“Nós não olhamos volatilidade como risco. Risco para nós é a possibilidade de perda. Se eu estou em uma tendência de alta — com mercado a meu favor e trazendo resultados positivos ao fundo — e a volatilidade aumenta, nós não reduzimos a exposição”, diz Chaves.

“Uma verdadeira fábrica de algoritmos.” É assim que a Visia Investimentos se define, segundo Flavio Terni, um dos sócios-gestores da casa. Nessa linha de produção, o processo de gestão passa por um longo caminho. Começa com uma hipótese macro e suas correlações com diversos ativos, com os resultados testados em diferentes etapas até a implementação tecnológica e a efetiva incorporação na rotina de negociações. “O gestor é quem formula a hipótese, isso às vezes pode assustar o investidor, mas o aspecto positivo é que a gestão não depende de uma única pessoa, tem perpetuidade.”

Com tal disciplina, o multimercado Visia Zarathustra, que tem histórico desde 2012, apresenta um retorno equivalente a 346% do CDI desde o início. Neste ano, o ganho é de 14,9%, com boa parte disso, 7,5%, só em agosto até o dia 30. No mês, a contribuição veio majoritariamente de dólar, juros e bolsa americana. As posições no fundo agora já estão bem reduzidas.

Terni cita que a escolha pela abordagem quantitativa da Visia é menos pela liderança que as gestoras dedicadas ganharam no mercado internacional, mas porque 90% dos dados disponíveis na internet foram criados nos últimos 12 meses. “Acho que a capacidade de informação e decisão correta de um gestor macro, num cenário indefinido e em constante mutação, está fora de contexto. Mesmo o gestor discricionário hoje se vale de um suporte quantitativo para traçar suas estratégias.

Fonte: Valor Econômico

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