FUNDOS MACRO TÊM SOBREVIDA, MAS RETOMADA É DUVIDOSA

Volatilidade trazida pela pandemia traz resultados, mas liquidez de BCs deixa futuro incerto

Três anos atrás Hugh Hendry, um dos mais conhecidos gestores de fundos hedge do Reino Unido, decidiu parar. Uma carreira forjada em apostas audaciosas sobre as tendências econômicas mundiais estava indo mal, deixando de ser divertida para o profissional de 48 anos - e seus poucos investidores remanescentes.

Em uma carta de despedida, em setembro de 2017, antes de trocar Londres pelo Caribe, Hendry culpou o enorme estímulo do banco central por sufocar a volatilidade desejada pelos “piratas” dos investimentos globais macro, uma importante estratégia dos fundos hedge que envolve apostar nos destinos de nações e governos por meio de bônus, moedas e commodities.

“O negócio estava perdendo a graça e me senti envolvido numa tarefa impossível”, admitiu Hendry em uma entrevista de seu refúgio em St. Barts. Assim, surfar ondas de verdade, em vez das econômicas, estava sendo mais interessante

Mas agora a volatilidade voltou com força, depois que a crise do coronavírus tragou a economia mundial. Isso vem alimentando um renascimento de muitos hedge funds macro, com alguns deles conseguindo ganhos não vistos desde o apogeu da década de 90.

O principal fundo da Brevan Howard, a firma comandada pelo bilionário Alan Howard, obteve um ganho superior a 21% no primeiro semestre de 2020; o principal fundo de Paul Tudor Jones na Tudor Investment Corporation ganhou 8% até julho; e a Rokos Capital Management de Chris Rokos avançou 24% até o fim de julho, segundo documentos encaminhados a investidores e outras fontes.

A Caxton Associates apresenta um retorno de 31% no ano, segundo investidores, enquanto um fundo administrado pelo presidente-executivo da firma, Andrew Law, mostra alta de 42%. Já a Moore Capital de Louis Bacon, que no ano passado decidiu dispensar os investidores externos remanescentes de seus principais fundos, depois de um longo período de modorra, registrou um ganho de 25% em sete meses até julho. As firmas não quiseram fazer comentários sobre seus desempenhos.

Até mesmo Hendry se viu atraído de volta, tirando a poeira de seu terminal da Bloomberg e fazendo, em maio, uma aposta na alta do preço do ouro - mais uma vez um negócio popular entre os fundos hedge macro. “Estou de volta ao jogo, mas não tenho vontade de fazer a gestão do dinheiro”, observou o investidor aposentado.

A Soros Fund Management, gestora de fundos hedge mais conhecida por “quebrar” o Banco da Inglaterra em 1992 com sua aposta contra a libra esterlina, hesitantemente voltou às suas raízes. Embora Dawn Fitzpatrick venha gradualmente retirando dinheiro dessa estratégia desde que assumiu como diretora de investimentos em 2017, neste ano ela alocou algum dinheiro para um fundo global macro de fora pela primeira vez.

O que ninguém discute é que os gestores macro precisavam urgentemente de uma retomada, dado o êxodo que muitos investidores sofreram. “Foi um período frustrante”, diz o diretor de um fundo global macro.

Na Brevan Howard de Londres, uma das firmas mais conhecidas do setor, os ativos despencaram de cerca de US$ 40 bilhões em 2013 para US$ 6 bilhões, levando a especulações de que ela poderia devolver o dinheiro dos investidores.

“Estava claro que os retornos que nosso principal fundo estava produzindo na época não estavam deixando nossos investidores felizes”, disse em uma entrevista Aron Landy, seu presidente executivo. “Sabíamos que precisávamos mudar.”

Mas ele observou que fechar ou converter a firma em um family-office para administrar a fortuna da Howard não era opção. “Nunca esteve nos planos”, disse Landy. “Sempre acreditamos em nós”, afirmou, acrescentando que a firma avaliou que seus gestores “produziriam retornos com o tempo, especialmente quando as condições de mercado se mostrassem mais favoráveis”.

Mas se há um alívio com a retomada dos investimentos macro, há pouco consenso sobre sua duração. Dawn Fitzpatrick da Soros Fund Management é mais cética. O ambiente de mercado que tornou a estratégia lucrativa no passado - informações financeiras mais esparsas e mais lentas, políticas econômicas mais arriscadas e mercados menos eficientes -, não voltará, explica ela.

“Investir é ter uma vantagem e não há classe de ativos em que se possa conseguir isso em mercados macroeconômicos líquidos e grandes”, diz ela. “O grau de dificuldade no macro discricionário é grande.

Dave Fishwick, gestor de um fundo hedge macro da britânica M&G, concorda. Lembrando como ele costumava ter de esperar pela chegada dos dados sobre a economia da Alemanha, pelo correio físico, na década de 80, ele afirma: “Acho muito difícil argumentar que você tem uma vantagem informativa num mundo em que qualquer um tem as mesmas informações”.

E no momento em que um punhado de grandes companhias de tecnologia alavancou os preços das ações nos EUA para um novo patamar recorde nesta semana, o renascimento dos fundos macro globais também pode estar sendo exagerado pelo forte desempenho de uns poucos gigantes.

Enquanto Tudor, Moore, Brevan Howard e Caxton se saíram bem em 2020 até agora, o “Pure Alpha”, principal fundo da Bridgewater, acumula uma perda de 14% no ano até junho, segundo fontes próximas da firma. Na média, os fundos globais macro encontram-se estáveis no ano, segundo dados da Aurum Fund Management, uma firma que investe em fundos hedge.

Isso se compara a uma queda média de 2,8% da indústria de hedge funds no ano, mas é desapontador vindo de um estilo de investimento que fez sua reputação sobre a capacidade de se beneficiar de turbulências econômicas e políticas. Em comparação, as ações globais estão estáveis no ano, enquanto o índice mais amplo de bônus da Bloomberg mostra um retorno de 5,2%

“Há alguns investidores macro realmente muito bons por aí e este cenário é o melhor em algum tempo, mas eu seria cuidadoso em acreditar que todo fundo global macro está se saindo bem”, acrescenta Dawn Fitzpatrick.

Ela calcula que o global macro respondia por cerca de um décimo dos ativos da indústria de fundos hedge há uma década, mas que agora isso caiu para 6%. A Aurum estimou que os ativos combinados sob administração dos 196 fundos macro que ela monitora eram de US$ 161 bilhões no fim de junho. Esse peso menor contribuiu para os problemas nas estratégias, afirma ela.

“Todos os melhores fundos hedge macro eram grandes agregadores de informações. Então, eles surgem com uma tese que não tem consenso, marcam uma posição e se tornam grandes contadores de histórias. E então uma grande onda de dinheiro os segue. Mas como o capital mudou para estratégias passivas ou sistemáticas, isso também reduziu as oportunidades”, afirma ela.

O dinheiro que Soros alocou recentemente para outro fundo global macro é, desse modo, para um que combina a abordagem discricionária tradicional da estratégia com uma abordagem quantitativa e mais orientada por computadores. Dawn Fitzpatrick não quis citar nomes, mas fontes a par do assunto disseram que se trata do Symmetry, um fundo hedge com ativos de US$ 5 bilhões e voltado para a Ásia.

Nem todo mundo acredita que as oportunidades falharão rapidamente, dada a gravidade da pandemia e a grande quantidade de choques secundários prováveis.

O diretor de um fundo macro diz que após “algumas movimentações espetaculares do mercado” anteriormente neste ano, ainda dá para ganhar dinheiro em Treasuries protegidos da inflação, por exemplo. “Você não precisa fazer previsões apocalípticas sobre a inflação para ganhar dinheiro com a inflação”, diz o gestor, uma vez que até mesmo mudanças modestas nos preços podem provocar barulho no mercado.

Mas Hendry, por exemplo, não acredita que isso tenha sido algo além de um último espasmo. Ele diz que os bancos centrais deixaram de ser “máquinas de volatilidade” para se tornar supressores hiperativos de turbulências econômicas e financeiras.

“Se a volatilidade continuar aumentando, isso levará a um renascimento”, diz ele. “Caso isso não aconteça, então será apenas uma breve pausa na longa, lenta e enfadonha morte dos macro globais.”

Fonte: Valor Econômico

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