Home NEWS Capital Markets A vez das pequenas
Por Beatriz Cutait e Thais Folego | De São Paulo
Ana Paula Paiva / Valor
Cabral, da Bram: estratégia de fundos de small caps tem potencial para crescer de US$ 300 milhões para US$ 500 milhões

As pequenas e médias empresas são a bola da vez. Ao menos é o que indicam os esforços do governo para estimular o desenvolvimento desse nicho ainda pouco explorado na bolsa. A ideia é dar apoio a essas companhias com novas formas de financiamento no mercado de capitais e torná-las mais atrativas aos olhos de investidores, por meio de isenções tributárias e incentivos com a retaguarda da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Diante de uma série de iniciativas anunciadas, gestoras de recursos já começam a se movimentar para estudar potenciais oportunidades para explorar esse segmento, mas com as expectativas voltadas para o médio e longo prazo.

Segundo o gestor sênior de renda variável da Bradesco Asset Management (Bram), Milton Cabral, a estratégia atual da casa de fundos voltados para "small caps" tem potencial para crescer de US$ 300 milhões para US$ 500 milhões sem dificuldades. Esse desenvolvimento, contudo, depende das próprias companhias que vão se enquadrar nas medidas. "Precisamos verificar a qualidade, o perfil, o apelo e a vocação dessas empresas. E se são tipicamente companhias que precisam de capital e multiplicarão ao longo do tempo", diz o gestor, em referência à preocupação sobre a destinação dos recursos e o retorno do capital para o investidor.

A Bram espera adaptações em termos de liquidez dos fundos, com um período de resgate mais longo. As empresas em questão também deverão apresentar um tempo maior de maturação, o que exige mais cuidado na distribuição do produto, segundo Cabral.

A gestora enxerga uma carência na bolsa principalmente em relação ao setor de serviços, mas destaca que as empresas que vão entrar nessa nova leva deverão ter um tamanho menor que as habituais small caps. O universo em questão seria o das "nano caps", com um mercado inexistente ainda no Brasil. "Não tem sequer uma diversificação para montar um fundo que já esteja preparado para essas empresas", afirma Cabral.

Uma das principais medidas já em vigor foi anunciada em junho pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, e trata da isenção de imposto de renda sobre os ganhos de capital no investimento em ações de empresas de pequeno e médio porte. O benefício vale para companhias com faturamento de até R$ 500 milhões ao ano e valor de mercado de até R$ 700 milhões na data da oferta de ações, conforme a Medida Provisória Nº 651.

Segundo a BM&FBovespa, das cerca de 200 empresas que a bolsa tem mapeadas para listagem de ações, 87 têm potencial para listagem ou IPO no Bovespa Mais, segmento de acesso da bolsa destinado a companhias menores, nos próximos três anos. A maior parte (36%) está no segmento de consumo cíclico (como comércio, hotelaria e restaurantes, serviços diversos e vestuário), seguido pelos setores de tecnologia da informação (17%) e construção e transporte (14%). Essa distribuição é bem diversa da existente hoje na bolsa e pode trazer, inclusive, oportunidades de investimentos em segmentos pouco representativos no mercado. Das empresas listadas na BM&FBovespa em abril, 30% eram do sistema financeiro (ver quadro).

Para ter direito à isenção de imposto, as companhias terão de listar suas ações no Bovespa Mais ou no Novo Mercado, segmento com prática rigorosas de governança corporativa. O incentivo fiscal será válido até 2023, e inclui tanto o investimento nas ações no momento da oferta como nas negociações posteriores em bolsa. O benefício abrange a aplicação direta ou via fundos.

Ao fim de junho, a CVM ainda divulgou a Instrução 549, com a criação dos fundos de investimento em ações - mercado de acesso (FMA), com possibilidade de investir em companhias fechadas e abertas. Essas carteiras têm como política aplicar pelo menos dois terços do patrimônio em ações de companhias listadas nesse segmento, assim como alocar até um terço dos recursos em companhias fechadas, desde que tenham ingerência em sua gestão.

O presidente da BM&FBovespa, Edemir Pinto, conta que foi ao Congresso na semana passada para falar sobre a MP 651. "Esperamos que ela seja transformada em lei ainda este ano", diz.

Apesar de ainda aguardar a conversão da MP em lei para se movimentar de forma mais concreta, Pedro Rudge, sócio da gestora Leblon Equities, vê potencial no segmento, especialmente no contexto macroeconômico brasileiro. "Num ambiente de juros mais normal, faz mais sentido os investidores estarem expostos a ativos com esse perfil. É claro que há reflexos sobre a liquidez e um pouco mais de risco, dado que essas empresas não são tão estruturadas, mas o potencial de valorização tende a ser bastante maior", afirma.

A expectativa de Rudge é que, no médio e longo prazo, o mercado seja cada vez mais dinâmico em relação à listagem de empresas menores, até por conta do esforço conjunto das entidades.

Rudge compara o processo com o desenvolvimento do Novo Mercado, o qual teria demorado um pouco para engrenar, mas, uma vez com boas histórias, passou a desenvolver um ciclo natural de evolução. O ponto principal, na visão do sócio da Leblon, é que nenhuma empresa vai entrar na bolsa apenas de olho nos incentivos fiscais concedidos aos investidores, que são apenas "mais um empurrão". E o mesmo vale para gestoras interessadas em lançar fundos para esse nicho de mercado. "É uma maneira de aumentar a velocidade de um processo que já estava acontecendo", diz.

Hoje, os fundos da Leblon investem uma parcela em torno de 20% do patrimônio em empresas menores, mas, por terem liquidez mensal, as carteiras limitam o tamanho dessas companhias. A gestora tem papéis de companhias como Saraiva, Springs Global, Cambuci e Senior Solution. Com o tempo, entretanto, a ideia é que a gestora tenha um fundo dedicado às pequenas e médias. O importante é ter um veículo certo para esse tipo de aplicação. "Esse fundo teria liquidez de no mínimo 180 dias. Teria uma janela de resgate muito mais adequada para o perfil de investimento", afirma Rudge.

Nesse momento, a Fama Investimentos não vê espaço para lançar mais uma carteira para esse nicho de mercado. A gestora de recursos já investe em "micro caps" em um de seus fundos, que representa apenas 4% dos ativos sob gestão. Segundo o sócio responsável pela área de investidores da Fama, Marcus Peixoto, a casa tem no seu DNA a aplicação em companhias pequenas e pouco líquidas, mas tem uma posição conservadora com relação ao tempo dos efeitos das medidas anunciadas pelo governo. E é preciso ter em mente que o prazo de retorno também é diferente nesses casos, pondera.

"Sempre acreditamos muito no potencial de valorização de longo prazo de empresas pequenas ou com baixíssima liquidez, desde que se tenha paciência de investir para médio e longo prazo. E essa paciência é definida por quem são seus cotistas", afirma Peixoto, citando pessoas físicas de alto poder aquisitivo e com maior entendimento do mercado de capitais, ou investidores institucionais.

O gerente-executivo de fundos de ações da BB DTVM, Jorge Ricca, ressalta que, para ter mais empresas pequenas e médias numa carteira, é preciso ter maior variedade de ativos e um trabalho de gestão ativa. E, além da liquidez, seria preciso analisar questões como governança corporativa com um maior nível de especificações. "São setores diferentes, empresas menores. É precisa conhecer com mais nível de detalhes", diz. "Esse é um nicho no qual se tem grandes oportunidades, mas que pode ter grandes armadilhas também. O trabalho de análise se torna ainda mais importante."

Assim como seus pares, Ricca assinala que esse tipo de iniciativa demanda tempo. De fato, o mercado prevê impacto concreto apenas no médio e longo prazo, seja pelos entraves naturais a serem vencidos pelas empresas de menor porte interessadas em se listar em bolsa, seja pelas próprias condições do mercado e a atual atratividade da renda fixa.

"Essa virada não se dá do dia para noite. Quando uma empresa decide abrir capital, ela precisa de um tempo para se estruturar. Montar uma área de relacionamento com mercado, começar a apresentar seus demonstrativos mesmo não sendo aberta, ter um acompanhamento de meta, profissionalizar a gestão", afirma o gerente-executivo da BB DTVM.

A ideia é que, com um número maior de empresas no mercado de acesso e entrando na bolsa de olho na isenção tributária, as gestoras tenham mais opções para montar carteiras específicas para esse nicho, com a possibilidade de diversificação. A tarefa, contudo, não é nada fácil, já que o mercado acionário de forma geral não tem tido tranquilidade nos últimos anos e a pessoa física tem respondido diretamente ao menor apelo da modalidade, com uma representação menor sobre a base de investidores. E também merece menção o interesse (ou a falta dele) por parte de bancos de investimento de coordenarem ofertas de tamanhos menores, que consequentemente geram receitas abaixo da média. Há ainda quem diga que a própria isenção tributária poderá não surtir efeito, com as pequenas e médias empresas chegando ao mercado com o benefício incorporado no preço de suas ações.