Home NEWS Capital Markets Venda de crédito 'podre' pode ir a R$ 40 bi em 2017

Por Vinicius Pinheiro, Talita Moreira e Felipe Marques | De São Paulo

Dois grandes movimentos vêm pautando as empresas que atuam na compra de créditos "podres": a perspectiva de aumento de negócios, com a alta esperada da inadimplência tanto entre famílias como em empresas, e a maior disposição dos grandes bancos em desovar os créditos em atraso que carregam no balanço ou mesmo os já baixados para prejuízo. A projeção de quem atua neste segmento é que ele passe a movimentar até R$ 40 bilhões ao ano, considerando o valor contábil das carteiras, até 2017.

Quem já atua neste mercado saiu em busca de recursos para fazer frente ao potencial aumento no volume de negócios. Em agosto, a Jive Investments fechou a captação de um fundo de R$ 500 milhões para a aquisição de créditos em atraso, principalmente corporativos, e ativos em situação problemática. Até então, a gestora atuava só com capital próprio.

A RCB Investimentos, outra empresa brasileira tradicional no setor, também se capitalizou recentemente. Com uma carteira de R$ 16 bilhões em valor de face, a gestora recebeu, também há dois meses, um aporte da americana PRA Group. O valor do negócio não foi revelado.

A Canvas Capital, gestora fundada por Antonio Quintella, ex-presidente do Credit Suisse, planeja captar um fundo de créditos corporativos inadimplentes, desta vez voltado a investidores brasileiros.

Trata-se da terceira investida da gestora na área. Neste ano, a Canvas já captou um fundo de R$ 500 milhões para créditos "podres", direcionado a estrangeiros. Em fevereiro, a gestora trouxe como sócio Rafael Fritsch, vindo da carioca JGP, para comandar as operações com ativos "podres". Nesse processo, a Canvas passou a atuar como cogestora de um fundo de créditos inadimplentes que a JGP já tinha - a carteira, de R$ 200 milhões, está completamente investida.

A contrapartida da movimentação das gestoras são as incursões, cada vez mais frequentes, dos grandes bancos na venda de carteiras. A Caixa, por exemplo, vendeu R$ 8,28 bilhões em créditos inadimplentes apenas no primeiro semestre. Desse volume, R$ 7,2 bilhões foram comprados pela Recovery e R$ 1 bilhão pela Ativos, que pertence ao Banco do Brasil. Já o Santander, apurou o Valor, vendeu uma carteira de crédito de R$ 1 bilhão recentemente. O banco espanhol é um vendedor recorrente.

Nas contas de Flavio Suchek, presidente da Recovery, o potencial do mercado brasileiro de venda de créditos "podres" é movimentar R$ 30 bilhões a R$ 40 bilhões por ano, considerando que, no total, os bancos brasileiros registram cerca de R$ 100 bilhões ao ano em novas operações de crédito inadimplentes. Em 2015, ele acredita que as carteiras ofertadas devem somar entre R$ 15 bilhões a R$ 20 bilhões.

Ao mesmo tempo em que as oportunidades aumentam, os riscos para quem opera na aquisição de créditos inadimplentes em um momento de retração da economia são maiores. O preço pago nas carteiras será uma variável fundamental para determinar o retorno do investimento, segundo Godofredo Barros, sócio da Ipanema Credit Management, que possui um total de R$ 7 bilhões em carteiras sob gestão. "Esse é um negócio que não admite erros, tanto na compra como na forma de cobrança das dívidas".

Empresas que não atuam especificamente com créditos "podres" também vislumbraram oportunidades na área. A financeira Omni, especializada na concessão de crédito para veículos usados, fechou a aquisição de duas carteiras de crédito, uma delas pertencente ao Banco Pecúnia, com valor de face total de R$ 2,4 bilhões.

O aumento da concorrência é apontado como saudável pelos profissionais que atuam no segmento. Quanto mais profissionalizadas estiverem as empresas, maior a propensão dos grandes bancos de colocar as carteiras à venda, segundo Suchek, da Recovery. "O negócio do banco é conceder crédito, não atuar na recuperação", afirma. A Recovery se vale de funding exclusivo dos sócios - BTG Pactual e IFC - para investir na compra de carteiras. Mas com a perspectiva de aumento nos volumes negociados, a empresa avalia captar recursos de terceiros.

Fonte: Valor Econômico