Home NEWS Capital Markets Empresas de energia emitem debêntures de curto prazo

Por Daniela Meibak

Apesar da forte retração dos mercados de crédito e de capitais, as empresas de energia têm encontrado algum espaço para emitir debêntures, com aumento das captações neste ano. Boa parte dessas operações tem como objetivo financiar projetos de fontes renováveis leiloados no passado.

As emissões de debêntures do setor de energia somaram R$ 2,17 bilhões de janeiro a abril em 15 operações, o que representa um avanço de 48,8% na comparação com o mesmo período do ano passado. Os dados são da Anbima, associação que representa as instituições que operam no mercado de capitais.

O setor foi o que mais captou no período, respondendo por 32,9% do total de debêntures. O segmento de transporte e logística veio em seguida, com 27,1%. Nos primeiro quadrimestre de 2015, as empresas de energia representaram apenas 8,2% do volume.

No entanto, algumas das emissões para financiar os projetos de energias renováveis - feitas pelas sociedades de propósitos específicos (SPE) - são de prazo curto. Os vencimentos vão de alguns meses a até dois anos. As operações também seguem os moldes das ofertas com esforços restritos de colocação. Em geral, são "encarteiradas" pelos bancos e não vendidas a investidores.

De acordo com fonte de uma instituição financeira que preferiu não ser identificada, o prazo mostra que as emissões têm sido usadas como empréstimos-ponte, e não como financiamento de longo prazo. Neste ano, apenas uma oferta de debênture de infraestrutura foi feita.

Entre as emissões com essas características feitas neste ano, estão as da Usina de Energia Eólica Vila Amazonas V, da Usina de Energia Eólica Vila Para e da Santa Vitória do Palmar (também eólica).

"Temos acompanhando, que na comparação com demais setores, energia eólica tem mais operações e mais oportunidades. Realmente, tem havido boa demanda, bons projetos, e um 'pipeline' [operações a serem lançadas] grande", afirma Alexandre Teixeira, diretor de renda fixa e financiamento de projetos do Itaú BBA.

"Uma série de leilões aconteceu e as empresas precisam viabilizar os investimentos. Em condições normais, os projetos têm fluxo de caixa estável e previsível, por isso é relativamente fácil financiar", diz Marina Anselmo, sócia da área de mercado de capitais do escritório Mattos Filho.

Com a crise hidrológica iniciada em 2012, o país aumentou o foco em projetos de energia renovável e, nos anos seguintes, foram promovidos mais leilões para geração a partir de fontes alternativas. Depois de dois a três anos dos leilões, as companhias precisam entregar a energia contratada e, por isso, têm necessidade de caixa para fazer frente aos investimentos.

O setor conta com financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e, quando as empresas participam dos leilões, as condições de financiamento já são dadas. Uma parcela pequena é financiada pelo mercado de capitais - cerca de 20%, segundo Marina. Algumas vezes, o próprio BNDES subscreve as debêntures.

"Há movimento para captação nesse setor porque empresas ganharam concessões em leilões recentes, sobretudo no Sul e no Nordeste, onde venta bastante, e pelo momento atual do cronograma precisam entregar energia em breve. A fase atual é de levantamento de recursos e o mercado de capitais serve como fonte suplementar", diz Ricardo Russo, sócio do escritório Pinheiro Neto. Russo lembra que, em alguns projetos, o BNDES aceita compartilhar garantias, o que traz mais facilidade para fazer a operação via mercado.

Russo destaca também uma terceira fonte de recursos - a Caixa Econômica Federal. Segundo ele, a Caixa capta via BNDES e repassa o dinheiro para as companhias, ganhando um spread. "Esse tipo de operação é cara. Vimos pouco no passado, mas está ficando mais forte. Dois clientes já foram a Brasília para conversar com o banco para tentar repasse", explica.

O caminho mais eficiente, mas não tão frequente quanto desejado, é a captação via debêntures de infraestrutura, que seguem as regras da Lei nº 12.431, que dá isenção ao investidor pessoa física.

De acordo com Teixeira, do Itaú BBA, o mercado voltado para pessoa física está aquecido neste ano, mas a procura tem sido por títulos com prazos mais curtos. Por isso, há pouco interesse por papéis de infraestrutura, que geralmente têm prazo mais longo.

"Vimos um começo de ano forte para títulos incentivados, mas a maior parte é de certificados de recebíveis do agronegócio (CRA). Debêntures de infraestrutura, só vimos uma operação. Tivemos um volume interessante para esse investidor, mas com prazos menores aos que as debêntures exigem", diz.

Hans Lin, responsável pelo banco de investimento do Bank of America Merrill Lynch (BofA), afirma que o setor de energia tem vários projetos com necessidade de financiamento, mas pondera que o mercado local de dívida é muito dependente dos bancos e, no momento, está mais restritivo. "Não vemos abundância [de recursos] para o setor", diz.

Segundo Lin, as emissões vistas no mercado são "oportunistas". Ele pondera que, no geral, a situação não está fácil para as empresas, que muitas vezes precisam recorrer à venda de ativos. "Vemos o mercado de fusões e aquisições muito ativo. Empresas não conseguem financiar o projeto e optam por vender para quem tem condições de colocar a operação de pé", afirma.

Fonte: Valor Econômico