Home NEWS Capital Markets Emissão local supera BNDES pela 1ª vez em uma década

Por Alessandra Bellotto e Flavia Lima

O mercado de capitais foi uma das poucas fontes de financiamento a ganhar participação no saldo de dívida das empresas ao longo do ano passado e, segundo especialistas, tem todas as condições de repetir o protagonismo em 2017. Na composição do funding corporativo, a fatia de títulos de crédito emitidos no mercado local não só cresceu como, de modo surpreendente, superou a participação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) pela primeira vez em pelo menos dez anos.

Enquanto o estoque total de dívida das empresas apresentou queda superior a 8% no ano passado, para R$ 3,24 trilhões, a parcela representada por debêntures, recebíveis imobiliários e do agronegócio, entre outros papéis, cresceu 6%, para R$ 609,4 bilhões, aponta levantamento do Centro de Estudos do Instituto Ibmec (Cemec).

Com isso, o mercado de capitais doméstico alcançou uma fatia de 18,8% do saldo de financiamento corporativo no fim de 2016, acima dos 16,3% registrados em 2015. As operações de dívida privada foram ganhando tração especialmente nos últimos três meses de 2016. Só nesse período, segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), as emissões locais alcançaram R$ 42,6 bilhões, mais de 40% do total registrado no ano.

Na contramão, o estoque de empréstimos direcionados do BNDES cedeu 12,8% ao longo do ano passado, para um total de R$ 552,3 bilhões – maior queda percentual entre as fontes de recursos para as empresas. Após o recuo, o financiamento via BNDES corresponde a 17% do estoque total.

A queda de participação do banco público no financiamento corporativo é resultado, principalmente, de reposicionamento. No divã há pelo menos dois anos, o BNDES revê o seu papel na economia, reorientando sua política de concessões. Na semana passada, o governo anunciou o que talvez seja o componente mais importante dessa transformação: a extinção gradual da política de crédito subsidiada pelo Tesouro.

Por meio de novas regras de remuneração, a tradicional TJLP vai ser substituída por uma taxa atrelada ao rendimento das Notas do Tesouro Nacional (NTN-B). A ideia é que, em cinco anos, os subsídios sejam eliminados. "Reduzir o subsídio mostra o custo real das concessões. O funding subsidiado mascara o resultado e atrai um monte de gente sem fôlego", diz fonte que costuma participar desse tipo de operação.

Ao avaliar o papel do BNDES, Carlos Antonio Rocca, diretor do Cemec, destaca que "sem condição de continuar tomando recursos do Tesouro, o dinheiro acabou". Ele lembra que as transferências do Tesouro ao BNDES cessaram no ano passado, após alcançarem R$ 416 bilhões em um período que começa em 2008. Como reflexo da estratégia de maior seletividade, os desembolsos do banco caíram 35%, para um total de R$ 88,3 bilhões.

Ainda segundo Rocca, a oferta de recursos subsidiados serviu para aumentar os desequilíbrios, ao elevar a dívida pública sem que os investimentos na economia realmente decolassem. Para ele, muitas das companhias financiadas pelo banco de fomento eram de porte grande, com modelo de

governança, transparência e balanço auditado, ou seja, com condição de recorrer ao mercado de capitais - o que deve ocorrer com mais frequência daqui para frente.

Além do BNDES, o crédito bancário com recursos livres também recuou no ano passado, ainda que se mantenha como a principal fonte de financiamento corporativo. Do lado dos bancos, o impacto violento da crise econômica sobre as companhias, que deixou marcas em seus balanços, obrigou-os a colocar o pé no freio do crédito. Segundo o estudo, a baixa no saldo de empréstimos foi de 9,6%, para R$ 786 bilhões - o equivalente a uma participação de 24,2% no estoque total de dívida corporativa.

O mercado internacional, por sua vez, responde por 33,6% do saldo de dívida corporativa, mas a maior parte disso corresponde a operações intercompanhias (capital transferido da matriz para a filial no Brasil). Se considerado apenas o mercado internacional de capitais, as emissões de bônus corporativos chegaram a US$ 17,3 bilhões - fatia que, convertida em reais, é de apenas 2,6% na composição do funding corporativo. Em 2017, porém, as empresas já levantaram cerca de US$ 9 bilhões no exterior, o que sinaliza que o ano pode surpreender positivamente.

No geral, a percepção é que esse jogo da diversificação de fontes de financiamento, com a atração de investidores de longo prazo, como fundos de pensão, só fica em pé com taxa de juros mais baixas. "Aí sai subsídio e entra o mercado", diz executivo de um grande banco.

"O mercado de capitais é o que tem condição de responder mais rapidamente à melhora do cenário e à queda de juros e consequente redução do custo de captação para as empresas", diz Rocca, para quem o comportamento recente tanto do mercados de dívida quanto de ações, com mais companhias

anunciando abertura de capital e emissões secundárias, já reflete essa percepção.

Se o juro mais baixo for estrutural, avalia Alberto Fernandes, vice-presidente de corporate e investment banking do Itaú BBA, a mudança será "gigantesca", com o mercado de capitais passando a desempenhar o papel típico de financiador de longo prazo. Se, além do juro mais baixo, as reformas

se concretizarem, diz, é possível ter um segundo semestre bem atípico do ponto de vista positivo, com muitas operações e a bolsa chegando a números importantes. "É um pipeline forte de investidores entrando no Brasil e comprando empresas, IPOs [ofertas iniciais de ações], follow-ones [ofertas subsequentes] e também 'bonds' no exterior."

Daniel Vaz, chefe da área de mercado de dívida local do BTG Pactual, ressalta que o mercado de capitais em 2016 foi muito puxado por securitização imobiliária e do agronegócio. Esse tipo de operação é favorecida por isenção tributária ao investidor pessoa física. Para este ano, diz Vaz, a expectativa é outra.

"Para 2017, deve ser diferente. Esperamos muita debênture tradicional", diz ele, em referência aos papéis que vão efetivamente a mercado e não às debêntures usadas por instituições financeiras para dar crédito e que acabam nos balanços dos próprios bancos. As debêntures "encarteiradas" costumam ter fatia significativa das emissões, embora já tenham perdido um pouco de força no fim de 2016. "Apesar de não ter isenção fiscal, as assets miram o papel tradicional. Vemos diversas assets independentes, gente nova com um pouco mais de volume, excelentes gestores que podem ajudar a revolucionar esse mercado."

Quanto aos bancos, a percepção geral é que eles tendem a se manter como parte fundamental do funding corporativo, especialmente para um grupo de empresas que não são pequenas, mas não conseguem acessar o mercado de capitais - seja por sustentarem um rating pior ou por já estarem muito tomadas no mercado.

André Fernandes, responsável pela área de riscos do BTG Pactual, afirma que o crédito bancário segue como canal de financiamento importante, especialmente se a empresa precisa de dinheiro para desembolso rápido ou prazos curtos. Fernandes reconhece que o custo do crédito bancário ainda é alto, mas menor do que no ano passado, quando os bancos não tinham apetite para crédito. "O mercado já não está mais nessa situação. Já há uma certa disputa entre os bancos, embora ainda num patamar alto de spread", afirma ele.

Fonte de um importante banco diz que o papel das instituições financeiras é fazer a economia girar, distribuindo o crédito entre as melhores companhias, mas elas não vão resolver o problema do financiamento de longo prazo no Brasil. "Os bancos farão uma ou outra operação, mas estarão muito focados no desenvolvimento de curto e médio prazo dessas companhias, com participação menor no crédito do que tinham no passado." Para esta fonte, não é trivial ao banco carregar no balanço empréstimos de dez, doze ou treze anos, como se viu. "O capital custa caro para eu travá-lo por tanto tempo e, portanto, tenho que cobrar caro do cliente. Quem não cobra caro para empréstimos de longo prazo são os caras que poupam. Ou seja, é o mercado de capitais."

Fonte: Valor Econômico