Home NEWS Wealth Management Península, de Abilio, gere R$ 10 bilhões
Por Graziella Valenti | De São Paulo
Regis Filho/Valor
Abilio: à frente de mais dois possíveis grandes investimentos ao estilo BRF

A quem ainda tivesse dúvida, a semana que passou marcou o encerramento completo do capítulo Pão de Açúcar na vida de Abilio Diniz, que construiu o negócio ao lado do pai e fundador, Valentim dos Santos Diniz. Não há mais nenhuma ação da rede nas mãos da família. As vendas deste último lote foram de R$ 450 milhões.

A notícia e as cifras são um reforço à nova atividade na vida do até então empresário: investidor. Desde que inaugurou nesse ramo, com a investida na gigante de alimentos BRF, fruto da fusão de Perdigão e Sadia, Abilio vem se estruturando para esta nova fase.

E isso nada tem a ver com se preparar para deixar o empreendimento de sua vida, após o conflito ruidoso com o sócio Casino. Mas com organizar a gestão do patrimônio familiar- filosoficamente e estrategicamente.

Acaba de nascer - com o fim deste processo de reestruturação - uma enorme casa de gestão de patrimônio. Nada menos do que R$ 10 bilhões estão aos cuidados da Península Participações, considerando investimentos líquidos, imóveis e o caixa a ser ainda aplicado. A venda das ações do Pão de Açúcar trouxe uma liquidez total de R$ 5,3 bilhões à casa.

"Sempre gostei de montar time e trabalhar com equipes muito fortes, mas fazer isso como investidor é totalmente diferente de tudo o que fiz e tenho gostado muito da experiência. É um processo muito interessante", declarou Abilio ao Valor.

A organização da Península se deu em pleno voo. Enquanto a gestão dos recursos e análise oportunidades já ocorria. Afinal, a posição em BRF foi montada há dois anos. De lá para cá, um time se organizou, estruturou e estudou, com a família, o tema.

Foram mais 30 visitas a gestores de grandes fortunas familiares mundo afora. Assim como deixaria a empresa aos filhos e netos, Abilio quer fazer o mesmo com o patrimônio, agora mais líquido.

Mas a ideia é mais do que isso. Além de cuidar dos recursos, o objetivo é organizar e reunir a família em torno desse projeto por diversas gerações, promovendo e perpetuando uma cultura empreendedora. Na Península também está o instituto, com projetos em educação e esporte.

Hoje, são mais de cem profissionais na Península. Destes, cerca de 20 dedicados a gestão de recursos, considerando analistas e "traders". Todos duplamente comandados por Eduardo Rossi, presidente executivo e de investimentos da casa. Formado em finanças e marketing pela Fundação Getúlio Vargas e com MBA pela Universidade de Columbia, Rossi teve a carreira construída na área financeira, com atuações no Banco Patrimônio, Salomon Smith Barney, JP Morgan e Brennand Family Office.

Na parte de investimentos, a Península está estruturada em três frentes. A maior vitrine é a de projetos grandes e estratégicos, na qual está a BRF, com R$ 1,5 bilhão aplicado. As alocações serão relevantes, geralmente na casa do bilhão, e onde Abilio possa ser o acionista de referência, com participação e interferência na gestão.

Rossi explicou, com exclusividade ao Valor e em rara entrevista, que este segmento deve ter mais uma grande empreitada e, no máximo, mais duas. É aqui que deve ficar o Carrefour, caso o plano seja mesmo levado a cabo. Sobre isso, contudo, nenhuma palavra. Não há, porém, qualquer intenção de negar que varejo é um foco grande da Península, pela experiência.

Não há um volume específico de recursos que deve ser aplicado nessa frente - nem mínimo e nem máximo. "Eu me arriscaria a dizer que, no espírito da coisa, não passa da metade do patrimônio. Hoje é muito menos do que isso." Essa é a única pista que Rossi fornece.

Ao lado do gestor, que chegou na Península em junho de 2010, muito antes da ideia de que a se transformaria numa casa de gestão com este tamanho e potencial, está Flávia Almeida, como vice-presidente de investimentos diretos. É ela quem cuida das aplicações do fundo de participações (private equity) e dos imóveis, com destaque para as 61 lojas do Grupo Pão de Açúcar e o terreno do Hotel Fasano. Antes da Península, foi sócia da Mckinsey e do Grupo Monitor, além de ter liderado a holding familiar da Camargo Corrêa.

A aplicação mais relevante do fundo, até agora, é a empresa de educação Ânima, numa posição de R$ 150 milhões. A aplicação mínima do fundo, segundo Flávia, deve ficar em torno de R$ 50 milhões. O foco deve ser o Brasil, enquanto nas demais frentes as aplicações podem ser internacionais.

Por trás das escolhas estarão os conceitos de inovação e transformação. Os setores de preferência são educação, consumo e varejo. Em especial, as áreas de bem-estar, orgânicos e qualidade de vida.

Por fim, há os investimentos de liquidez, de carteira, que podem ser compostos por renda variável, renda fixa, moedas, entre outros.

A diretoria executiva fica completa com Renata Catelan, também vice-presidente. Ela está no comando das operações de fusões e aquisições e na condução das questões jurídicas, de societário a tributário. Desde a época em que trabalhava no escritório Mattos Filho, Veiga Filho, Marrey Jr. e Quiroga, Renata acompanhou a trajetória e saída do Pão de Açúcar.

Semanalmente, o time reúne-se com Abilio para tratar de estratégia. Também há uma reunião do conselho de administração ou de um dos quatro comitês - financeiro, de risco, de pessoas e investimento direto. O conselho é liderado por Abilio e tem ainda a esposa, Geyze, e os três filhos, Ana Maria, João Paulo e Pedro Paulo. Caio Mattar, ex-Pão de Açúcar, finaliza o time como independente.

Apesar de grande isoladamente, o poder de fogo da Península pode ser ainda maior. A disposição é trabalhar, sempre que possível, em conjunto com outros private equities - nacionais e internacionais. A experiência em BRF, ao lado da Tarpon, já é um caso deste tipo. Flávia explica que a casa tem grande vantagem de não ter prazo, como os fundos. Rossi completa: "não há nada engessado aqui."