Home NEWS Wealth Management As letras da fortuna

Por Luciana Seabra | De São Paulo

Cenário incerto e títulos isentos de imposto de renda à mão levaram o investidor de alto patrimônio a fugir do risco de mercado. Os recursos de clientes do private banking investidos em LCIs e CRIs, ativos de crédito privado com lastro imobiliário, cresceram 19% no primeiro semestre. Para as LCAs, que financiam a agricultura, o avanço foi de 17%. O saldo líquido aplicado por esses clientes nos papéis imunes ao Leão aumentou em R$ 17,6 bilhões, para um total de R$ 117,4 bilhões. No mesmo período, a parcela investida em fundos multimercados e de ações foi reduzida em R$ 4,7 bilhões, para R$ 177,2 bilhões.

O patrimônio dos fundos de curto prazo e DI, os mais conservadores da indústria, também cresceu, em R$ 4,3 bilhões para R$ 30,3 bilhões, ainda que não tanto quanto o dos produtos isentos. Já ao buscar novos horizontes, o investidor foi mais ousado. O valor aplicado em fundos cambiais ou carteiras que destinam 100% dos recursos ao exterior mais do que dobrou, ainda que sobre uma base pequena, de R$ 587,6 milhões para R$ 1,2 bilhão.

O relatório de private banking referente ao primeiro semestre, obtido com exclusividade pelo Valor, será divulgado hoje pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) em evento do setor. O segmento atende a clientes com mais de R$ 1 milhão em patrimônio investido segundo o padrão da associação. Na prática, o valor mínimo varia de uma instituição para outra. É de R$ 1 milhão no BTG Pactual, de R$ 3 milhões no Itaú Unibanco, Bradesco e Santander, e alcança R$ 5 milhões no HSBC e no Credit Suisse, por exemplo.

"Aliado ao conservadorismo que os clientes vêm tendo, pela véspera do período eleitoral e certa incerteza de mercado, houve um período de desempenho não muito bom em uma série de fundos multimercados", afirma Renato Cohn, chefe da área de gestão de fortunas do BTG Pactual. A postura cautelosa, que pelo lado do crédito recaía no passado sobre os CDBs, agora refletiu-se na demanda por LCIs e LCAs, afirma Cohn. De fato, os recursos alocados em CDBs, operações compromissadas, DPGEs e Letras Financeiras encolheram 5,5% no primeiro semestre, para R$ 61 bilhões.

As taxas pagas pelos títulos isentos subiram a régua. A concorrência pesou sobre os fundos multimercados muito conservadores ou que carregavam um histórico recente ruim, depois de um 2013 difícil, afirma Cohn. Já nos últimos seis meses essas carteiras tiveram um desempenho mais positivo, diz, superior em muitos casos ao ganho com LCIs e LCAs, mas leva-se um tempo até que o reflexo se dê na captação. No longo prazo, Cohn diz defender para os clientes que os fundos vão gerar valor acima das letras de crédito. Mesmo quando se olha para o passado, em uma janela maior, como de 36 meses, são bem mais raros os gestores de multimercados que não batem o CDI, afirma.

Também para João Albino, presidente do comitê de private banking da Anbima, as letras de crédito continuam sendo um produto interessante quando se olha a alocação para o curto prazo, como 60 dias ou seis meses, mas perdem charme quando se olha o longo prazo. "Na hora em que houver uma definição mais clara de como vai ficar juro, câmbio e inflação, voltamos a um caminho mais natural de investimento em fundos, bolsa e alongamento das carteiras", diz Albino, também diretor do private banking no Bradesco.

O desempenho depressivo em fundos de fato fez os clientes apelarem para produtos alternativos, diz Maria Eugênia Lopez, diretora do private banking do Santander. Ficou na memória a queda de 15,5% do Ibovespa em 2013. Os fundos de ações não caíram tanto, mas os que buscam superar o índice, por exemplo, tiveram prejuízo de 2,5%. Os multimercados fecharam o ano, na média, praticamente em linha com o CDI, lembrando que nesse caso ainda é preciso descontar o imposto de renda.

"Quando olha a questão estática, o cliente tende a realizar o prejuízo. Quem zerou o risco da carteira naquele momento, não vai recuperar isso", diz Maria Eugênia. A fotografia deste ano é mais positiva, principalmente para fundos de ações, que se aproximam dos dois dígitos de retorno.

É bom lembrar que, apesar de não oscilar ao sabor dos mercados, LCIs e LCAs têm risco de crédito. Para valores acima de R$ 250 mil, aplicados com o mesmo CPF, não há cobertura do Fundo Garantir de Crédito (FGC). Maria Eugênia diz que, em geral, os papéis comprados pelos clientes do private são de instituições financeiras com bom risco de crédito. Ainda assim, ela recomenda a diversificação. "Sempre falamos para o cliente não colocar o investimento dele em um único papel."

Marco Abrahão, diretor responsável pelo private banking da Credit Suisse Hedging-Griffo (CSHG), vê um cenário muito parecido com o de 2011, quando a Selic foi elevada até 12,5%, depois de passar uma parte do ano anterior em um dígito. "Foi um ano em que a estrutura de renda fixa cresceu bastante no private banking", diz Abrahão. Como naquela época, diante do aumento da taxa de juros, o investidor preferiu agora o conforto da liquidez diária. O comportamento foi reforçado pelos dados mais fracos da economia brasileira e suas revisões para baixo, afirma.

Dentro de casa, Abrahão diz que houve uma alocação de dinheiro novo em letras de crédito, mas que, nos fundos exclusivos, a estratégia em renda fixa foi mais sofisticada e acabou se mostrando mais rentável. Parte dos recursos dos clientes foi alocada em títulos públicos indexados à inflação com vencimento em 2016. Com o ajuste para baixo nas expectativas do mercado para os juros, a valorização desses papéis no ano ficou próxima de 150% do CDI, aponta o responsável pelo private do Credit. A estratégia foi complementada com debêntures, que também se valorizaram com o fechamento do prêmio em relação aos papéis públicos.

O investidor de alto patrimônio tem sido mais afeito a diversificar quando o tema é atravessar fronteiras. "Esse cliente tem mais informação e quando vê a recuperação da economia americana e europeia, ele quer capturar esse ganho, até em função de estar em um mercado em menor taxa de crescimento", afirma Maria Eugênia.

Os dados do relatório do private banking, que mostram o crescimento de 110% nos recursos aplicados em fundos cambiais e de investimento no exterior, refletem apenas uma fatia dos investimentos feitos pelos donos de grandes fortunas no exterior. Uma parcela que, apesar de avançar a passos largos, ainda é pequena, passando de 0,1% a 0,2% do portfólio neste ano.

Não estão aí, entretanto, os 20% do patrimônio que os fundos multimercados podem alocar fora ou os 10% no caso das carteiras de ações. Nem a fatia dos recursos alocada via fundos exclusivos que não destinam todo o dinheiro ao exterior. E, principalmente, não são contabilizadas as aplicações feitas diretamente, via uma conta no exterior, sem o intermédio de um veículo local. Essas remessas também são crescentes, até usadas por Renato Cohn, do BTG, para ajudar a explicar a desaceleração do private local.

Albino, da Anbima, vê com bons olhos o avanço da aplicação fora via produtos locais. "Dou ao cliente a exposição offshore e mantenho a indústria local aquecida, forte e gerando empregos", diz.

No private banking do Credit Suisse, os clientes têm hoje de 15% a 20% do patrimônio investidos no mercado internacional. Em 2012, lembra Abrahão, essa fatia estava perto de zero. No começo deste ano, a casa migrou um terço dos recursos alocados por clientes na bolsa brasileira para ações de fora do Brasil. Os investidores aproveitaram, por exemplo, a alta recente do S&P. Não é algo somente conjuntural, entretanto, diz Abrahão. "Entendo que esse tema da diversificação no exterior é estrutural", afirma, considerando que apenas o percentual pode ser ajustado de acordo com o momento.