Home NEWS Wealth Management Investidor, o Fed vem aí

Por Luciana Seabra | De São Paulo

 

O banco central americano bate à porta. Para o time de estrategistas do J.P. Morgan, o Fed (Federal Reserve) vai elevar os juros um pouco mais cedo do que a maior parte do mercado espera: entre março e junho do ano que vem. "Temos conversado muito com os clientes para prepararem o portfólio, não esperar para realocar", afirma Gabriela Santos, estrategista responsável pelo "Guide to the Markets Brazil", uma cartilha trimestral produzida pelo banco americano com o intuito de educar e informar investidores globais sobre o mercado brasileiro.

Brasileira, Gabriela tornou-se em Nova York pupila de David Kelly, estrategista global do J.P. Morgan. Com apenas 28 anos e formação em economia pela Universidade da Pensilvânia, ela chegou ao J.P. há dois anos carregando no currículo outros dois anos no private banking do HSBC, em que passou por Genebra, Cingapura e México.

Precoce, Gabriela foi escolhida para coordenar a produção do guia brasileiro, que se somou às outras cinco versões regionais - Estados Unidos, Ásia, Japão, Europa e Reino Unido. A primeira cartilha foi a americana, que começou a ser produzida há dez anos. A cada três meses são impressas 150 mil cópias dos seis guias, em dez idiomas, sendo que outros 85 mil pessoas recebem as cartilhas por e-mail.

Munida do guia referente ao quarto trimestre, Gabriela passou uma semana deste mês em visitas a investidores latinos, em uma jornada por Colômbia, Peru, Uruguai, Chile e Brasil, onde conversou com o Valor. O esforço era o de tentar demovê-los do chamado "home bias", viés de comportamento que leva o investidor a concentrar demais o portfólio no país em que vive. É uma tendência comum, mas mais forte no Brasil, segundo Gabriela, especialmente na renda fixa, turbinada pelos juros elevados. "É mais difícil explicar aos brasileiros os benefícios de se investir fora", diz.

Ao longo de 2014, mostra o guia do J.P. Morgan, houve um forte fluxo de recursos para fundos curto prazo e DI, enquanto saía dinheiro de todas as opções de maior risco - renda fixa prefixada, multimercados e carteiras de ações. "Na nossa opinião, em termos de Brasil, faz sentido tirar dinheiro de renda variável, por conta do crescimento econômico, que impacta o lucro das empresas", diz, Gabriela, ressalvando que esses recursos não deveriam ser todos destinados aos fundos conservadores locais.

Nesse movimento de realocação, pelo menos uma fatia do portfólio deveria ser destinada ao exterior, defende a estrategista. Quando a elevação dos juros americanos ocorrer, diz, o efeito negativo será maior sobre os países emergentes que estão com a economia em pior estado, com crescimento baixo e déficit. É o caso do Brasil. Os países da Ásia emergente seriam os mais protegidos, diz Gabriela. Na América Latina, o México aparece em melhor posição.

O Brasil já teve uma amostra do impacto de um ajuste da política americana sobre o mercado local no ano passado, quando cresceu a expectativa de alta dos juros americanos. "Talvez agora seja um pouco melhor do que em 2013, com o mercado mais preparado", diz.

A evolução de dois dados em especial chamam a atenção de Gabriela no guia trimestral brasileiro e depõem contra o país. Um é o crescimento econômico abaixo da média histórica há cerca de três anos. O outro é a confiança. "Tanto a do consumidor quanto a industrial estão em níveis próximos do que se viu na crise", afirma, em referência aos dados de confiança da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Para Gabriela, a bolsa americana deveria fazer parte do portfólio dos investidores brasileiros. A pergunta é se ainda há espaço para alta ou se o aplicador não vai chegar atrasado à festa. O índice S&P 500 subiu 29,6% em 2013 e 12,1% em 2014 até 4 de dezembro. Desde 2009, não há um forte ponto de inflexão, de alta para baixa, na bolsa americana, mas isso não preocupa Gabriela. Havia ali um problema estrutural, considera. E, quando se compara com o auge de 2000, que também antecedeu alguns anos de queda, a relação entre preço e lucro naquela ocasião em 25,6 vezes, estava em 15,3 vezes no fim de setembro deste ano.

"Vemos a economia americana crescendo mais forte agora", afirma Gabriela, ressalvando que é difícil prever quanto tempo vai durar o período de alta. Um fator que aponta para valorização adicional é o fato de grande parte dos investidores do varejo americano ainda não ter feito a migração para o risco. "Os Estados Unidos são o país que vemos hoje com mais convicção em termos de crescimento", reforça.

 

Fonte: Valor Econômico