Home NEWS Wealth Management Em busca de novos papéis

Por Danylo Martins | De São Paulo

 

As aplicações em títulos de crédito privado que contam com isenção fiscal seguem ganhando espaço no portfólio do investidor brasileiro, mesmo com a retomada do ciclo de alta de juros. Nesse grupo estão desde os ativos ligados ao setor imobiliário até os títulos do agronegócio, entre eles letras de crédito e certificados de recebíveis. Nos últimos 12 meses, até outubro, o estoque desses papéis na Cetip - principal ambiente de negociação - cresceu mais de 40%, alcançando R$ 157,5 bilhões. Para se ter ideia, os Certificados de Depósito Bancário (CDBs), alternativa popular entre os investidores mais conservadores, registraram retração de quase 12% no saldo em outubro, para R$ 551,8 bilhões.

Mais recentemente, vêm chamando a atenção os títulos do agronegócio. O estoque de Letras de Crédito do Agronegócio (LCA) registrou aumento de 21,5% em outubro, para R$ 26,4 bilhões, comparado com o mesmo mês do ano passado, segundo dados da Cetip. Já o volume de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) cresceu 161% na mesma comparação, para R$ 864,4 milhões. "O mercado de CRA ainda é incipiente. Agora que começou a haver mais emissões. Já a LCA tem tido um crescimento consistente", diz Ricardo Magalhães, gerente executivo de desenvolvimento de produtos da Cetip.

No universo dos títulos que financiam o setor imobiliário, os dados da Cetip mostram um crescimento de cerca de 49% no estoque de Letras de Crédito Imobiliário (LCI) em outubro em relação ao mesmo mês do ano passado, para R$ 90 bilhões, e de 35,1% no volume de Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI) na mesma comparação, para R$ 40,3 bilhões.

Emitidas por instituições financeiras, as LCAs e LCIs têm como lastro carteiras de crédito dos segmentos correspondentes. A principal vantagem para o investidor pessoa física é a isenção de Imposto de Renda, de acordo com os especialistas. "Cada vez mais o investidor está se preocupando com a rentabilidade líquida dos produtos", afirma Daniel Lemos, diretor de renda fixa da XP Investimentos.

Segundo Amerson Magalhães, diretor da Easynvest Título Corretora, outro atrativo é a garantia oferecida pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC), que desde maio ampliou o teto de cobertura de R$ 70 mil para R$ 250 mil. "A primeira garantia é a dada pelo emissor da letra de crédito. A instituição faz a captação e direciona para o crédito agrícola. O mesmo acontece com o crédito imobiliário, que está aquecido com mais emissões de LCI", destaca Magalhães.

Na avaliação de Mário Amigo, professor de Finanças da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi), essas alternativas abrem espaço para a diversificação da carteira de investimentos. "A indústria brasileira ainda é muito concentrada em alguns instrumentos. Muitas LCAs alcançam 85%, 88% do CDI. Faz muito sentido para o investidor pessoa física porque é um instrumento simples", diz. Mas, alerta o professor, é preciso analisar a taxa que está sendo oferecida, bem como o período de vencimento da letra de crédito, e ter uma instituição sólida, com boa reputação no mercado, por trás do produto.

O cenário econômico do país ainda favorece o investimento em letras e certificados lastreados em crédito e recebíveis do agronegócio e do setor imobiliário, uma vez que a taxa de juros ainda permanece baixa para os padrões históricos. E, mais do que isso, a inflação ainda está pressionada, comprimindo os juros reais. "O momento é propício para esses títulos, principalmente porque estamos chegando ao fim do ano, época de oportunidades para o investidor", afirma Osvaldo Cavalcante, diretor executivo de finanças da Caixa Econômica Federal.

Responsável por grande parte do crédito imobiliário do país, a Caixa tem a LCI como um de seus principais produtos. "O título se popularizou com rapidez nos últimos anos por conta da expansão do crédito", conta Cavalcante. Neste ano, o banco já captou aproximadamente R$ 19 bilhões. Com disposição para aplicar pelo menos R$ 30 mil, o investidor pode ter um rendimento entre 80% e 93% do CDI, conforme o valor investido, o prazo escolhido e a opção por liquidez diária ou não, oferecida depois de 60 dias de carência. "O prazo máximo é de 24 meses. Sem liquidez, o investidor tem uma remuneração melhor", diz.

No Banco do Brasil (BB), a letra de crédito do setor imobiliário é oferecida para o varejo, abrindo oportunidades para o pequeno investidor. "Os títulos podem ter vencimento de dois a cinco anos. Menos do que dois anos não é tão comum", afirma Edmar Casalatina, diretor de empréstimos e financiamentos do banco. A remuneração é de 75% do CDI. O volume de LCI fica abaixo do registrado pela Caixa. "Atualmente, estamos com saldo de R$ 3,4 bilhões", diz.

Destinada a investidores com maior renda, a LCA no BB, um dos principais financiadores do setor agrícola, é destinada para quem tem no mínimo R$ 30 mil para aplicar. "Por ter liquidez diária e rentabilidade atrativa, houve um aumento na demanda, principalmente para diversificação de portfólio", diz Casalatina. Segundo ele, neste ano, o saldo de emissões já alcançou cerca de R$ 72,3 bilhões. O investidor pode optar por títulos com vencimentos que variam de dois a cinco anos, podendo atingir 95% do CDI.

No ano passado, a Caixa também começou a emitir a letra lastreada em créditos do agronegócio. O volume ainda é pequeno comparado com o do BB, mas está em expansão, de acordo com Cavalcante. "Estamos chegando perto de R$ 1 bilhão", afirma. No banco, o produto é oferecido só para investidores com mais de R$ 1 milhão, os chamados superqualificados. O prazo máximo tanto da LCA quanto da LCI é de dois anos. "Trata-se de um papel de baixo risco, com boa rentabilidade, que chega a 93% do CDI", afirma Cavalcante.

No Banco Fator, os títulos são populares entre os integrantes do segmento private, segundo Julian Hester, diretor de produtos da instituição. "O número de emissões de LCA tem aumentado e representa parcela crescente do funding do banco. Por ter isenção de IR, é um produto bem interessante e a gente espera um crescimento desse mercado", diz. Segundo o executivo, trata-se de um produto que tem o risco do emissor, mas com lastro em ativos ligados ao agronegócio, segregados, "uma proteção a mais em relação ao CDB".

Vale lembrar que a remuneração das letras de crédito, assim como no CDB, é negociada diretamente com a instituição emissora, e depende do relacionamento com o cliente e do volume de investimentos. Simulação feita pelo planejador Diógenes Dantas para a coluna "Consultório Financeiro" deste caderno na segunda-feira mostra que um CDB, para superar uma LCI ou LCA de dois anos que pague 85% do CDI, terá de oferecer pelo menos 100,1% do CDI, por conta da incidência de 15% de IR sobre a rentabilidade. Se o prazo for menor, de 60 dias, o CDB terá de pagar 109,7% do CDI, já que a alíquota de IR nesse caso sobe para 22,5%.

 

Fonte: Valor Econômico