Home NEWS Wealth Management Crédito mais temperado

Por Luciana Seabra | De São Paulo


Há uma década, os fundos brasileiros destinavam 72% dos recursos a títulos públicos, 12% à renda variável e 16% ao crédito privado. O retrato mais recente dessas carteiras, referente a abril, mostra um avanço dos papéis privados para 26%, em contrapartida de uma redução na fatia em títulos públicos para 61%. A parcela em renda variável ficou praticamente constante, em 13%. O caminho para o risco deu-se, portanto, via crédito, não ações. As cotas oscilam menos e o investidor se sente mais confortável. Só é preciso ter cautela para não confundir baixa volatilidade com ausência de risco.

Os gestores têm ampliado as equipes que se concentram na análise de crédito e sofisticado as estratégias. Cada vez mais produtos estruturados, como Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (Fidcs), entram nas carteiras. De 2010, quando começou a ser medido, a abril deste ano, o valor aplicado por fundos em direitos creditórios cresceu 40%, para R$ 47,86 bilhões, segundo dados da Anbima, associação que representa o mercado. Cresce também o número de fundos que destina parte dos recursos à compra de ativos de crédito no exterior.

É preciso fazer frente a uma concorrência quase que desleal, diz Leonardo Breder, gestor de renda fixa do Brasil Plural. Ele refere-se aos títulos com isenção fiscal, como LCIs e LCAs, que oferecem retorno atraente, especialmente para o investidor de alto patrimônio. "Para gerar um retorno acima disso em crédito, você tem que se propor a fazer algo diferente" afirma. Nos últimos 12 meses, o patrimônio do fundo de crédito "high yield" do Brasil Plural passou de R$ 200 milhões a R$ 980 milhões.

A Empírica Investimentos lançou há pouco mais de seis meses um fundo recheado somente de Fidcs, com foco na pessoa física que busca um retorno diferenciado. Na ponta do ativo estão os créditos que empresas têm a receber e que foram cedidos ao fundo, como faturas de cartão de crédito e contratos de financiamento imobiliário. Neste ano, a carteira rendeu 130% do Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI).

Como o público-alvo é a pessoa física, a Empírica fez um relatório mensal didático e prepara para setembro o lançamento de uma página na internet com vídeos educativos. Em prol da transparência, a carteira é divulgada sem a defasagem de três meses permitida pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A aplicação mínima é de R$ 25 mil, mas é preciso ser qualificado, ou seja, ter pelo menos R$ 300 mil em aplicações financeiras.

Fora do radar da maior parte dos analistas, os Fidcs são as "small caps" do mundo do crédito, diz Leonardo Calixto, que fundou a Empírica em 2008 com Aquiles Feldman e José Eduardo de Assunção. Os três trabalharam juntos no HSBC, onde nas funções de comercial, jurídico e back office criaram há dez anos um dos primeiros fundos a destinar parcela expressiva do patrimônio a Fidcs.

Mais dedicado à estruturação até o momento, o trio considera que agora há massa crítica para um fundo de fundos. A gestora compra principalmente produtos estruturados dentro de casa, processo que chega a levar seis meses. Os detalhes são essenciais para quem lida com crédito estruturado, diz Assunção. "Chegamos ao ponto de visitar todas as empresas que fazem guarda de documentos contratadas pelo custodiante."

O HSBC lançou neste mês um fundo de crédito que compra papéis com qualidade inferior aos que preenchem os outros fundos da casa. Entram no portfólio por exemplo, CDBs de bancos médios, debêntures emitidas por empresas de capital fechado e cotas mezanino de Fidcs, não só as do tipo sênior, que têm preferência no recebimento de recursos.

"Como acompanhamos todas as emissões, muitas vezes analisamos algumas com uma boa relação risco retorno, mas cujo risco não era apropriado para os fundos que já tínhamos aqui", diz Renato Ramos, diretor de renda fixa da gestora do HSBC. A nova carteira dá liberdade ao gestor para comprar papéis pouco líquidos, já que, em caso de resgate, ele tem seis meses para devolver o dinheiro ao cotista.

A BB DTVM captou R$ 325 milhões de 1,2 mil clientes private em um fundo de crédito mais sofisticado, criado em novembro. A carteira tem espaço para papéis com classificação "AA", não somente o "AAA" que costumava entrar nos fundos. "Começamos a perceber a procura dos investidores por crédito dessa natureza no segundo semestre do ano passado", diz Carlos Takahashi, presidente da BB DTVM. No acumulado deste ano, o fundo rende 115% do CDI.

Também começou a ser negociado em bolsa na semana passada um Fidc estruturado pela BB DTVM e pela gestora do Votorantim com foco na pessoa física. A carteira, que investe em debêntures de infraestrutura, atraiu 2,7 mil investidores de private e varejo alta renda. A aplicação mínima na carteira, disponível apenas para investidores qualificados, era de R$ 25 mil. O produto foi vendido com foco no longo prazo, como um complemento à previdência, segundo Takahashi.

Foram captados R$ 300 milhões, mas a BB DTVM quer abrir novas tranches de captação para chegar a R$ 1 bilhão. "Estamos com expectativa em relação a um volume maior de emissões no mercado", diz Takahashi. Como há muitas pessoas físicas entre os cotistas, ele também espera uma movimentação na negociação das cotas em bolsa. "Pode ser uma janela para o investidor entrar", afirma.

Os fundos, defende Takahashi, são um bom veículo para o investidor participar do mercado de crédito de alto risco porque as carteiras são diversificados e montadas por um gestor especializado.

A SulAmérica Investimentos criou no ano passado uma área de produtos de crédito estruturado, sob o comando de Rony Stefano, que geria o patrimônio da família Mittal. "Esse é um mundo diferente, em que você não tem tanto acesso à informação", afirma Marcelo Mello, vice-presidente da casa. A necessidade de estudar a fundo documentos e fazer visitas, diz, justifica a necessidade de um setor dedicado. Entre os ativos que passaram a entrar no radar da gestora estão CRIs, CRAs e Fidcs.

Os ativos vão entrar em um fundo novo da casa, de crédito privado estruturado. A aplicação mínima é de R$ 1 milhão, com carência de dois anos, e o foco é o investidor institucional. A pessoa física ainda é menos propensa aos produtos de baixa liquidez, diz Mello.

Para aplicar em fundos de crédito com a expectativa de ganhar 120% a 130% do CDI, o investidor deve estar disposto a ficar ali por um prazo maior, diz Richard Ziliotto, sócio da gestora de patrimônio Taler. Se o fundo compra emissões com vencimento distante, o passivo tem que estar alinhado. "Não é possível dar liquidez para 30 dias e carregar Fidcs com amortização semestral", exemplifica.

O investidor também não deve medir o risco pela volatilidade, alerta Ziliotto. Enquanto a ação oscila dia a dia, diz, o risco de crédito é binário. A cota desse tipo de fundo oscila pouco, mas, se o emissor quebrar, um papel pode passar a valer nada de um dia para o outro, com grande impacto sobre a cota. "Se essa parte de crédito representar uma parte muito grande do patrimônio do cliente, provavelmente ele está tomando a decisão errada", afirma o sócio da Taler. Para um investidor moderado, diz, a fatia não deveria ultrapassar 25% do portfólio.

 

Fonte: Valor Econômico