Home NEWS Wealth Management Cheias de classe

Por Sérgio Tauhata e Alessandra Bellotto | De São Paulo

 

Em meio a termos cada vez mais cifrados como ETFs e smartbeta, o cliente de fundos de investimentos pode sentir-se um tanto intimidado. A sofisticação das estratégias e o crescimento do leque de ativos à disposição têm tornado a vida do investidor melhor, mas também muito mais complexa. Se, de um lado, o horizonte de diversificação não para de se ampliar, de outro, a "fartura" de opções exige conhecimento para a tomada de decisão.

Dentro de um ambiente de amplitude cada vez maior de produtos para investimento, a classificação das carteiras torna-se uma importante ferramenta para uma alocação eficaz dos recursos. O mercado percebeu essa necessidade e passou a debater nos últimos anos um novo sistema de identificação para os fundos, de modo que ficassem mais evidentes questões como estratégia adotada e ativos em portfólio, além do risco associado em relação à expectativa de retorno.

A discussão culminou no lançamento, em abril, de uma nova classificação pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), em uma evolução dos antigos critérios que vão continuar a nortear gestores e investidores até julho.

Mas não foi só a Anbima que resolveu reorganizar a indústria de fundos para facilitar o entendimento. Consultorias e provedores de dados independentes também chegaram à conclusão de que o setor precisava de uma nova classificação, de modo que os fundos fossem reconhecidos por suas estratégias e riscos.

Quase ao mesmo tempo, as brasileiras NetQuant e Luz Soluções Financeiras lançaram suas novas classes, respectivamente, no primeiro trimestre deste ano e no fim de 2014, enquanto a americana Morningstar, depois de passar um ano no processo de tropicalização de sua já conhecida metodologia global de classificação de carteiras, passou a atribuir suas famosas estrelas aos fundos. Em dezembro do ano passado, as carteiras com mais de três anos distribuídas na plataforma da XP Investimentos passaram a ser classificadas segundo as estrelas da Morningstar com o objetivo de facilitar a seleção pelo investidor.

Os cinco tipos da categoria renda fixa - curto prazo, DI, renda fixa, renda fixa crédito livre e renda fixa índices - da atual classe Anbima resultaram em dez classes no caso da NetQuant, 13 na nova classificação Luz e seis na Mornigstar (ver quadro).

A partir de métodos quantitativos, usados para avaliar as estratégias de fato adotadas pelas carteiras, a NetQuant iniciou seu processo de reclassificação pelos fundos expostos estritamente ao segmento de renda fixa.

A Luz utilizou metodologia semelhante à da Anbima para separar as carteiras. Em lugar de uma análise quantitativa, a provedora solicitou aos gestores a adesão dos respectivos portfólios às novas classes. Segundo Maria Paula Cicogna, consultora da Luz, caso seja notada alguma discrepância, o gestor é questionado e a carteira, reclassificada, se necessário. A nova ferramenta traz dez grandes classes, segmentadas em 63 categorias. A provedora já completou sua reclassificação com os principais tipos: ações, multimercados e cambial, além de renda fixa.

A parceria com a XP foi o primeiro grande contrato no Brasil da americana Morningstar, que chegou a São Paulo em 2012, mas passou um ano no processo de adaptação da metodologia ao mercado local, segundo contou Luiz Braga, diretor de vendas no país, em entrevista ao Valor à época. Nos Estados Unidos e na Europa, onde as plataformas de fundos não ligadas a bancos são mais comuns, é praxe apresentar a classificação da Morningstar, que usa o método quantitativo para avaliar a real estratégia de um fundo. As estrelas estão na prateleira, por exemplo, da Charles Schwab, um "supermercado" de fundos americano que serve de referência à própria XP.

Uma comparação dos sistemas das provedoras com a classe Anbima atual, que será substituída a partir de julho, revela o quanto as definições vigentes podem ser amplas demais, como ressalta Marcelo Nazareth, sócio da NetQuant, que vê uma tendência de a entidade utilizar categorias genéricas.

Conforme Nazareth, embora a atual classe Anbima adote uma segmentação com alguma indicação de risco (de crédito, por exemplo), a análise da NetQuant mostra que mais de 85% dos recursos alocados em fundos de renda fixa não estão expostos ao risco de mercado, ou seja, acompanham a taxa de juros pós-fixada (Selic/CDI). Isso significa que a grande maioria das carteiras, na prática, seria composta por fundos DI. "A indústria de fundos de renda fixa é extremamente conservadora, com pouca coisa focada no longo prazo." Em número de fundos, 75,6% não têm exposição a risco de mercado.

O sócio da NetQuant ressalta que, como os títulos públicos sem risco de mercado, ou seja, atrelados à Selic, não representam nem 20% do total da dívida, o risco nas carteiras está sendo eliminado via derivativos. "Os grandes bancos ficam com o risco de mercado dos títulos longos e repassam CDI para os fundos. O que vocês acham que é mais rentável no longo prazo?", questiona.

Já o estudo da Luz mostra que, das carteiras classificadas nas três categorias do tipo renda fixa pela Anbima (renda fixa, crédito livre e índices), na verdade, 18% fariam parte do segmento de fundos DI, enquanto os ativos predominantes para mais de 24% dos portfólios são títulos de crédito privado.

Do total de fundos analisados pela NetQuant (incluindo fundos de investimento em cotas), 41% estão enquadrados na categoria "renda fixa" de acordo com a classificação Anbima. Mas, segundo a provedora, na verdade, essas carteiras exibem estratégias que vão da simples indexação ao DI a assumir risco de crédito ou de inflação.

Segundo a Anbima, há 228 fundos de renda fixa crédito livre, com patrimônio de R$ 82 milhões (incluindo fundo em cotas). Contudo, a análise da NetQuant encontrou 371 carteiras com mais de 60% em títulos com algum risco de crédito, ainda que bancário, como os CDBs.

A exposição a risco de crédito é quatro vezes maior do que faz crer a classificação da Anbima, destaca Nazareth, sócio da NetQuant. São R$ 254 milhões na classe pós-fixado crédito+ - lembrando que aqui também são considerados fundos em cotas. Dos 228 fundos de crédito livre, segundo a Anbima, 140 foram classificados pela NetQuant como pós-fixado crédito+.

De acordo com Maria Paula, da Luz, a autoclassificação, como ocorre na classe Anbima, pode motivar alguns gestores a migrar de categoria para "não ficar mal no ranking". Segundo a consultora, "há fundos ativos, mas fortemente atrelados ao CDI, que se colocam como passivos, porque, em um ranking de fundos ativos de renda fixa, a carteira poderia ficar mal classificada". Para evitar esse tipo de divergência, a Luz, ressalta a especialista, faz uma checagem para identificar eventuais discrepâncias e, se houver, a carteira pode ser reclassificada.

Na avaliação de Ciro Jorge, mestre em economia que avaliou em sua dissertação sistemas de classificação de fundos no país, iniciativas como as das provedoras de informações podem ajudar o investidor mais sofisticado na diversificação de portfólio. "A pouca diferenciação da relação risco/retorno de uma categoria para outra, como ocorre na atual classe Anbima, pode gerar uma concentração de risco para o investidor, quando na verdade a classificação tem por objetivo justamente a possibilidade de diversificar esses riscos", afirma.

Para Richard Ziliotto, sócio da gestora de patrimônio Taler, a nova classe Anbima vai melhorar muito a percepção de risco/retorno das carteiras. "Na Taler, a gente já usa uma abordagem semelhante à desenvolvida para a nova classificação", diz. Segundo o gestor, na futura categorização, primeiro filtra-se a classe de ativos, depois a gestão, o risco envolvido e, por fim, a estratégia. Com os vários níveis, pondera Ziliotto, o investidor consegue encontrar o produto certo, conforme seu perfil, se mais conservador ou tolerante a riscos.

O coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getúlio Vargas, Willian Eid Junior, no entanto, critica as novas classificações. "Qual a utilidade disso do ponto de vista do investidor? O problema é que, quanto mais a gente sofistica a classificação, mais complica a vida do investidor e mais o afasta do mercado [de fundos]", considera.

Para o pesquisador, mais do que identificar a estratégia das carteiras, os sistemas de classificações deveriam incluir a consistência de resultados dos fundos. "Um sistema que analise diversos fatores, como regularidade de resultados ao longo do tempo, pode ser mais interessante do ponto de vista do investidor", avalia Eid Junior.

Fonte: Valor Econômico